Um susto antecedeu a gravação da entrevista com o Kleber Mendonça Filho: na manhã de terça-feira, dia 20 de maio, Danilo Areosa pegou um Uber em direção a um cinema mais afastado da região do Palais para assistir o aclamado “O Agente Secreto”. Debaixo de chuva, o carro derrapou e o motorista não conseguiu evitar a colisão com o meio-fio. Resultado: horas no pronto-socorro e uma luxação no ombro do nosso crítico manauara.

Saindo do hospital, Danilo voltou a encarar uma corrida contra o tempo e, ao lado de Ivanildo Pereira, foi ao encontro da entrevista agendada com o cineasta pernambucano. Em uma entrevista rápida com o Cine Set, Kleber falou sobre ainda estar processando tudo o que aconteceu desde a sessão histórica dois dias antes, das referências para “O Agente Secreto” e da esperança de uma continuidade do grande momento do cinema brasileiro.

Cine Set – Cannes tem um carinho grande pela sua obra com grande receptividade em relação aos seus filmes. Tivemos frevo no tapete vermelho, aplausos no término de “O Agente Secreto”. Como está sendo a sua percepção do festival? Sente alguma diferença em relação aos anos anteriores? 

Kleber Mendonça Filho – Cada filme tem um universo totalmente independente. A primeira vez que estive em Cannes aconteceu em 1999 quando vim como crítico, igual vocês agora. Os anos passaram, fui fazendo curtas-metragens até chegar aos longas, quando deixa a crítica de vez. Foi uma coisa rápida, aliás, esta mudança: sai da crítica na sexta-feira e já estava na produção de “O Som ao Redor” no domingo. 

De lá para cá, meus filmes foram selecionados diversas vezes no festival e me considero um sortudo de tê-los lançados aqui. Quanto às reações, de modo geral, elas têm sido muito boas. Cannes tem um terror para os cineastas da possibilidade de ver seu filme depredado no Coliseu que é o (Grand Théâtre) Lumière. 

Eu tento ter uma boa relação com os meus filmes, pois, fiz tudo o que pude, da melhor maneira que consegui. Isso me dá uma segurança. Até agora tenho tido recepções muito boas. 

Cine Set – Você sempre foi um fã de cinema de gênero como fica claro em “O Som ao Redor” e “Bacurau”. Desta vez, quais foram suas referências para “O Agente Secreto”? 

Kleber Mendonça Filho – O filme se passa nos anos 1970 justo quando aconteceram as primeiras experiências com cinema. Minha mãe sempre me levava para ver filmes. Considero que foi uma época boa para viver isso porque tanto porque as salas eram grandes, tinham personalidade como pelo fato da safra daquele período ser ainda hoje muito especial, inclusive, pelo jeito de se fazer filmes. Foi algo que me marcou muito. 

As referências ao mesmo tempo que são naturais também fogem da ideia de ser uma cópia do cinema norte-americano; quero que seja meu filme e eu sou brasileiro, pernambucano, do Nordeste. Logo, desejo que ele tenha uma identidade. Isso, entretanto, também não me impede de trazer lembranças, sonhos, pedaços de filmes e livros que fazem parte da minha vida. 

A narrativa aqui é muito solta, fluida, livre – ela vai para lá e para cá com algo inesperado ali adiante. Sempre penso no John Carpenter, Nelson Pereira dos Santos, Hector Babenco, Brian de Palma, nos meus longas mesmo – “Retratos Fantasmas” e “O Agente Secreto” foram feitos quase simultaneamente. 

De qualquer modo, acho que a discussão sobre referências é muito difícil de debater por ser até um assunto íntimo. 

Cine Set – Durante a divulgação de “Retratos Fantasmas”, você fala que o cinema pode ir além de entretenimento e ser também um documento histórico. De que forma este pensamento guiou “O Agente Secreto”? 

Kleber Mendonça Filho – Qualquer filme é um documento histórico – uma comédia romântica feita para os multiplexs ou para televisão carrega este aspecto. A grande questão é se ela será guardada. Por isso, devemos fortalecer a Cinemateca Brasileira, por exemplo.  

Agora, quando você vai realizar um filme chamado “O Agente Secreto”, ambientado em 1977, cujo diretor é filho de uma mãe historiadora que trabalhava com documentos, a probabilidade de você fazer uma investigação histórica, talvez, seja maior e até natural.  

Meu desejo era fazer um filme de aventura, de intriga e mistério, mas também um pouco assustador e, acima de tudo, sobre como o Brasil e o brasileiro funciona. Também não tenho nenhum pudor de entrar no drama ou melodrama 

Preciso admitir, porém, que ainda é muito cedo. Estou tentando entender o filme e isso esta troca com a crítica e as pessoas contribui para este processo. São apenas conjecturas nesta altura. 

Cine Set – Falando nisso, o que tem chegado até a você da reação do público?  

Kleber Mendonça Filho – Tenho visto reações muito positivas, especialmente, da imprensa geral. Por outro lado, já vi reações confusas, de mistério, empolgação, excitação. No geral, fomos bem recebidos.  

Cine Set – Vivemos um momento altamente positivo do cinema brasileiro com prêmios no Oscar, Festival de Berlim. Como sustentar esta fase? 

Kleber Mendonça Filho – Pensando um universo com 140, 150 filmes, imagino que, com certeza, tenhamos produções fortes. A grande questão do surgimento de filmes é que ele orgânico e não matemático. Acho fantástico ter um ano em que “Ainda Estou Aqui”, “O Último Azul” e “O Agente Secreto” conseguiram plataformas prestigiosas de ocupação de espaço. 

Eu espero que alguém neste exato momento esteja trabalhando na montagem ou pós-produção de um filme que, daqui a seis meses ou um ano, consiga ocupar estes mesmos locais, tanto dentro quanto fora do Brasil. Vejo nossa produção saudável neste sentido. 

O desafio agora é abrir mais espaço de exibição e formação de público e da regulamentação do VOD, dois assuntos fundamentais para o audiovisual brasileiro. Precisamos transformar o streaming no Brasil em aliado e não um problema que está tirando público.