Quando lançado na metade da década de 2000, O Cheiro do Ralo marcou um casamento perfeito entre o diretor Heitor Dhalia e o escritor do livro que o filme se baseia, Lourenço Mutarelli. Oriundo do meio publicitário, a estética do cineasta combinava perfeitamente com o texto ácido de Murtarelli, cuja carreira consagrada nos quadrinhos refletia muitos conceitos deste mundo, transportando para o livro a deliciosa ironia quadrinista.
No papel do alterego do escritor na película, Selton Mello é Lourenço um comprador de objetos usados por pessoas que passam por dificuldades financeiras. Enfurnado em um galpão, ele fica perturbado pelo simbólico (e fedorento) cheiro do ralo que emana do banheiro do escritório ao mesmo tempo em que se encontra obcecado pela bunda da garçonete da lanchonete (Paula Braun) em que faz as refeições diariamente.
O desapego se sobrepondo as relações humanas
Se a sinopse por si só é inusitada, O Cheiro do Ralo se revela um dos filmes nacionais mais estranhos e divertidos da década de 2000. Dhalia faz um trabalho cínico, de estética debochada e que traz no seu texto, um olhar pertinente sobre a sociedade da época e que ainda continua relevante nos tempos atuais: o desapego ao afeto.
Lourenço de Mello é a pura amargura em forma de pessoa, um homem atormentado por angústias e desencantos. Ele não apenas coleciona itens como também sente prazer em colecionar as emoções dos clientes que chegam ao seu escritório. É nesse estudo de personagem que Dhalia e Murtarelli vão expondo uma sociedade cada vez mais afeita as compulsões e obsessões pessoais, onde a posse pelo poder se sobrepoõe ao valor das relações humanas. Isso é exemplificado nas ações de controle do empresário em relação aos pobres coitados que chegam ao empreendimento em busca de dinheiro.
O Cheiro do Ralo apresenta nas fixações do protagonista (o olho de vidro, a bunda enorme e o odor do ralo) um retrato contundente amargo sobre sociedade consumista, situação que parece ter pouco mudado de quase 20 anos atrás. Os próprios clientes não têm nomes e são identificados apenas pelos bens materiais que vendem ou pelas funções trabalhistas que atuam, indicando a frieza que a vida capitalista trata as pessoas, tirando qualquer traço da sua identidade pessoal. É um ponto de vista contemporâneo naquilo que existe de pior no comportamento humano quando o indivíduo pratica o controle pleno – Lourenço sente um enorme prazer em exercer seu pequeno e tirânico poder sobre as demais pessoas a sua volta.
Abordagem cômica alinhada a grande atuação de Selton Mello
Ao invés de instaurar uma melancolia pesada no ar, Dhalia prefere uma abordagem cômica que explora na personalidade excêntrica de Mello e na galeria de personagens esquisitos que aparecem para negociar com ele, um registro engraçado do personagem em várias situações com destaque para o fim do relacionamento dele com a noiva (Fabiola Gugli) ou a cena nonsense da confusão criada pela viciada de drogas (Silvia Lourenço).
Interessante o quanto a narrativa é enriquecida pela direção do cineasta, que visualmente é competente em trazer os elementos marginais do texto de Murtarelli com pequenas dicas visuais da personalidade de Lourenço nas relações com os demais personagens. O único problema é o roteiro de Dhalia e Marçal Aquino que foge em alguns momentos da subversividade textual do livro para se aventurar por uma colagem de acontecimentos que não permitem que a história siga seu curso natural, com as reflexões e divagações em relação as inseguranças do homem moderno, ainda que divertidas, fiquem superficiais não dando relevância a história como um todo.
É verdade que o trabalho não teria o mesmo êxito em levar essa história as telas, se não fosse o talento de Selton Mello em abraçar o personagem e o transformá-lo em uma figura ao mesmo tempo cativante e asquerosa aos nossos olhos. O timbre suave da sua voz e a postura escrota da sua atuação dão ao protagonista um jeitão de anti-herói, com ator fazendo escolhas acertadas em investir numa performance autoparódica entre o lado insano e cool de Lourenço.
Mesmo pouco lembrado, O Cheiro do Ralo é uma obra a ser descoberta – está disponível no streaming do Mubi – por gerar diversão e humor na mesma proporção que incomoda pela forma que externaliza a banalidade cruel do cotidiano de um sujeito que objetifica afetos e memórias humanas como se fossem meras mercadorias de consumo. Sem dúvida, uma metáfora sobre como a liberdade e a perversão da lógica capitalista podem corroer as relações humanas refletindo na podridão moral e ética da sociedade.















