Há uma mistura de gêneros em “Guerreiras do K-Pop”: temos elementos de comédia, fantasia e ação, regados ao estilo de música que conquistou os jovens na última década: o K-Pop. Visualmente, o filme também mescla estilos, uma vez que seus traços são predominantemente de anime, mas há ainda linhas que remetem a outras produções ocidentais como “Raya e o último Dragão”, “Elementos” e “Anastasia”. Toda essa mistura entrega uma produção divertida que chama atenção tanto pelos olhos quanto pelo que se escuta. 

Dirigido pela dupla Chris Appelhans e Maggie Kang, a animação acompanha um trio feminino de K-Pop que tem a missão de destruir demônios. A música é o grande pano de fundo da narrativa, que a usa tanto como elemento para a batalha física quanto para expressar aquilo que aflige seus personagens. Nesse sentido, fiquei refletindo como o gênero musical, que embala a narrativa, se inclina a falar palavras de afirmação e a expor como o eu-lírico se sente em relação ao que o incomoda, construindo tanto versos dolorosos, quanto agressivos e plácidos, também. Isso abre margens para a conquista do público e também para criar histórias fluidas. Algo que a música brasileira ainda tem dificuldade em fazer cinematograficamente. 

Assim, o coração e a estrutura narrativa da obra está na música. As canções são chicletes, as batidas prendem e as letras grudam na cabeça, como na era clássica da Disney. O roteiro as utiliza para orquestrar tanto o drama humano que tange as personagens quanto a ação sobrenatural. Afinal, nada mais místico do que uma batalha entre o bem e o mal cujo campo e instrumento é a sonoridade. Místico, espiritual, romântico e pulsante. Ela é quem oferece o impacto tanto para que as cenas de ação sejam intensas quanto para que os momentos de emoção sejam construídos. Os dramas de Rumi e Ji-noo são todos pautados pela música — tanto narrativamente quanto de forma estrutural, por exemplo. 

Em paralelo, o lado visual de “Guerreiras do K-Pop” não fica para trás. Estamos diante de um trio de divas do pop que enfrenta demônios e os ilustradores sabem se aproveitar disso para oferecer um show de cores contrastantes e vibrantes que nos fazem mergulhar nesse universo intenso e cheio de vida, mesmo no submundo. Os traços recolhem aquilo que há de mais interessante na cultura de animação ocidental e oriental, entregando um visual autêntico, cheio de personalidade. Os tons vivos, os movimentos de câmera e os passos de dança dos personagens são claramente inspirados nos videoclipes de K-pop. Todo esse conjunto tornam os frames musicais verdadeiros shows que não devem em nada aos artistas da vida real. 

Por falar nesta proximidade, vale ressaltar como “Guerreiras do K-Pop” consegue discutir ainda a cultura dos idols. Por um lado, explorando a devoção dos fãs aos artistas do gênero de forma satírica e engraçada, sem pesar sua colocação. Mas também expondo a pressão que é posta a esses artistas, tanto pelos familiares quanto a sociedade que os coloca em um pedestal, no qual não pode haver falhas, doenças e nem tampouco descanso. Nesse sentido, Rumi é a responsável para que a trama tenha seu arco dramático, é uma pena, contudo, que seus dilemas sejam repetitivos e enfraqueçam o equilíbrio da narrativa quando não consegue trazer as suas companheiras de banda — Mira e Zoey — para junto da reflexão principal, afinal elas também são guerreiras e cantoras de K-Pop, como o título sugere embalar. 

Da mesma forma, também falta um equilíbrio entre as cenas de ação e o drama. Mira e Zoey, por exemplo, estão sempre em ritmo de pancadaria e pouco percebem como Rumi carrega um conflito interno e se esconde dentro de uma armadura workaholic. Tais suavidades dramáticas e repetições enfraquecem o arco narrativo central de “Guerreiras do K-Pop”, deixando-o num feijão com arroz bonito e sonoramente impactante, pena que com uma narrativa frágil. 

No final das contas, o que o filme se propõe a fazer é celebrar o gênero do k-pop e quebrar barreiras impostas pelo preconceito musical. Funciona, porque agora fiquei com vontade de conhecer outras trilhas do gênero e seu impacto visual.