Em Imitação da Vida, filme de 1959, uma adolescente preconceituosa renega sua mãe e finge ser filha da patroa, vivida por Lana Turner, a fim de impressionar um namorado. Se essa história se passasse no Japão, uma Família de Aluguel talvez solucionasse seus problemas. 

Dirigido pela japonesa Hikari, Família de Aluguel conta a história de Phillip (Brendan Fraser), um ator americano que consegue um trabalho incomum com uma agência japonesa para interpretar papéis de substituto para estranhos. À medida que ele se imerge nos mundos de seus clientes, começa a formar laços genuínos que borram as linhas entre a performance e a realidade.

Devo começar dizendo que o filme é simplesmente uma graça. Não é exatamente o melhor que você já viu ou verá em sua vida, mas ele possui um charme que não tenho visto há tempos nesse estilo “dramédia”. O longa surge como essa obra delicada e instigante que usa um conceito exótico aos olhos ocidentais — agências no Japão que alugam “familiares” ou amigos para eventos e situações sociais — como ponto de partida para uma reflexão maior sobre solidão, identidade e a necessidade humana de conexão. 

O protagonista Phillip (Brendan Fraser) é um ator americano em Tóquio cuja carreira estagnou, sendo seu auge um comercial de creme dental. Ao conhecer Shinji (Takehiro Hira), dono de uma agência que cria determinados cenários para seus clientes, ele aceita o convite para trabalhar como o “cara branco que serve de token”, assim entrando em uma série de relações improvisadas e de início, cômicas, como ser um acompanhante em funerais falsos. 

Ele se questiona o porquê de as pessoas precisarem fingir, até que uma determinada, quando ele precisa atuar como um noivo, é que Phillip entende seu propósito e o filme ganha camadas mais dramáticas e reflexivas. Através dessas interações, em um mundo muitas vezes frio e desconectado, vemos que até mesmo relações simuladas podem tocar verdades profundas sobre o que significado de pertencimento. 

A direção de Hikari é marcada por um ritmo suave e uma sensibilidade contemplativa, optando por  momentos silenciosos e gestos pequenos, em vez de grandes sequências melodramáticas. Sua  escolha cria uma atmosfera íntima, aconchegante e charmosa, que favorece o olhar sobre Tóquio como um espaço de contrastes — moderno, tecnológico, esteticamente agradável, mas cheio de corações solitários. A diretora comentou sobre a negligência que os japoneses tratam questões de saúde mental e como isso foi um dos pontos que a fizeram realizar o filme. 

O que Família de Aluguel faz de melhor é explorar o paradoxo entre artificialidade e autenticidade. Ao mostrar personagens que buscam amor, aceitação ou simplesmente alguém que os veja – como um esquecido autor a qual Phillip finge ser um entrevistador para realização de um perfil – o filme nos confronta com questões como: até que ponto relações “fabricadas” podem revelar verdades sobre nossas carências? E quando essas conexões passam a ser mais reais do que as que temos no cotidiano? 

Essa última é o que traz a história para um lado mais dramático, com Phillip se apegando aos “personagens” dos quais ele deveria apenas contracenar. A ambiguidade é um dos pontos mais instigantes do roteiro. Hikari já alerta que não oferecerá respostas fáceis e nem moraliza as escolhas dos personagens, e pede para fazermos o mesmo. É justamente essa recusa em condenar ou exaltar as escolhas que levam-se à “alugar uma família” que torna o filme interessante. 

Brendan Fraser é a estrela do filme, mas sinceramente, não me convenceu. Eu nunca o achei um grande ator, nem mesmo quando Hollywood sentiu pena e decidiu lhe premiar com um Oscar. Ele é um homem sisudo, e num filme que você precisa trabalhar com emoções, isso se torna uma barreira. Não me incomodou, mas é nítido que ele não possui o carisma necessário pra segurar a personagem. A sorte é que temos outros grandes trabalhos, como a da garotinha Shannon Mahina Gorman, que dá vida a Mia, a quem Phillip finge ser o pai, de Mari Yamamoto como Aiko, uma das assistentes da agência e que vive um conflito sobre seu trabalho após a chegada do americano e de Akira Emoto como um ator aposentado e esquecido, que leva Phillip a sua maior aventura e também a um dos entrechos mais cômicos do filme. 

No balanço final, Família de Aluguel – eleito um dos 10 melhores filmes do ano pela National Border of Review –  trata de um assunto polêmico aos povos ocidentais, mas que com sua ternura e honestidade emocional, torna-se envolvente. É uma reflexão suave sobre solidão e acolhimento e mostra que a imitação da vida nem sempre é algo negativo.