O risco que Tonatiuh corria na nova versão de O Beijo da Mulher-Aranha era imenso. Primeiro por viver Luis Molina, célebre personagem da literatura, do cinema e dos palcos da Broadway, um sujeito fascinante, mas, que se não for bem feito, corre o risco de virar caricatural. Segundo por Molina já ter sido interpretado brilhantemente por William Hurt, o qual, inclusive, venceu o Oscar de Melhor Ator nos anos 1980 na adaptação dirigida pelo nosso Hector Babenco. Por fim, o jovem californiano está ao lado de Jennifer Lopez e Diego Luna, astros mundialmente conhecidos, logo, o risco de ser eclipsado era imenso.
Tonatiuh, entretanto, faz justamente o oposto no longa dirigido por Bill Condon. O Molina do ator injeta vida em um drama que destaca a força de ícones do cinema para pessoas vivendo situações limites – no caso, o protagonista de O Beijo da Mulher-Aranha é um prisioneiro político durante a ditadura na Argentina e precisando conseguir informações sigilosas do companheiro de cela.
Durante a tour de divulgação do filme, Tonatiuh conversou com o Cine Set e falou sobre as resistências históricas ao musicais, o que buscou se assemelhar e diferenciar da composição de William Hurt e qual seria a sua Ingrid Luna, atriz da era de ouro de Hollywood venerada por Molina.
Cine Set – Esta versão destaca o cinema como um espaço de refúgio emocional. Na sua opinião, como histórias como “O Beijo da Mulher Aranha” se tornam significativas para aqueles que sentem que perderam toda a esperança?
Tonatiuh – Molina me lembra um pouco Blanche, de Uma Rua Chamado Pecado, no sentido de que eles se recusam a olhar para qualquer coisa que não seja bonita. Esse é o poder do cinema. Esse é um dos dois poderes que ele possui. Molina olha para a realidade em que vivemos, sendo um espelho da nossa humanidade e um lembrete do mundo que queremos criar.
Molina sentia que era um perdedor na própria vida, e que nada jamais mudaria a partir do momento em que se apaixonou. E ao se apaixonar, ele pôde aprender dignidade, a se respeitar, lembrando que a única diferença entre a vida que ele queria e a vida que ele tinha era o amor.
Tem sido muito interessante assistir e conversar com as pessoas depois que elas veem nosso filme, porque muitas delas parecem estar com o coração se abrindo. Sinto que há uma espécie de dormência acontecendo porque é demais para sentir. Mas quando não sentimos, não nos conectamos. A vulnerabilidade é o preço que pagamos pela conexão. O Beijo da Mulher-Aranha parece estar ajudando as pessoas a chegar até isso.
Cine Set – Em certo momento, o roteiro brinca com uma crítica comum aos musicais — que os personagens “começam a cantar do nada”. Já que essa reação ainda é tão comum hoje em dia, como você acha que “O Beijo da Mulher Aranha” pode ajudar a quebrar essas barreiras para o público que resiste ao gênero?
Tonatiuh – Nosso filme é, antes de tudo, um drama naturalista sobre duas pessoas que não têm absolutamente nada em comum, obrigadas a viver juntas e a abandonar suas fachadas para chegar ao entendimento de que as coisas que elas achavam que as tornavam diferentes eram exatamente as coisas que as tornavam iguais. O Beijo da Mulher-Aranha é realmente sobre amor e conexão, com elementos musicais para que não fiquemos deprimidos, certo?
Mas o gênero musical, acho que muita gente não entende o quão belo e profundo ele pode ser. Se você olha para algo como A Noviça Rebelde, ou mesmo Wicked, existe tanto significado em camadas ali, e tudo isso reflete o seu tempo. A música, no geral, nos transforma de alguma maneira. Com uma única canção, com uma única nota, conseguimos senti-la dentro do corpo.
Quando Mimi e Rent apenas cantam “goodbye love” repetidas vezes, não existe um momento de nossas vidas em que também não tenhamos vivido algo parecido, no qual dizemos “adeus, amor”. Sou grande fã de teatro musical. Acho o gênero realmente divertido. Ele é subversivo. E as músicas podem ser cativantes.
Cine Set – Teve algo da atuação de William Hurt no filme dos anos 80 que você queria preservar? E o que você considera mais diferente na sua própria abordagem?
Tonatiuh – Ele estava no auge da carreira e escolheu contar essa história, abrindo caminhos para visibilidade em uma indústria que não acreditava que isso seria bom para ele. Essa coragem realmente permitiu que toda uma comunidade sentisse dignidade e espero que o nosso filme faça o mesmo.
Num momento em que pessoas trans estão sendo chamadas de terroristas e pessoas com identidade de gênero neutra estão sendo atacadas, e em que latinos no país também estão sendo atacados, eu espero que eles possam assistir ao nosso filme e lembrar que têm valor, que merecem dignidade. E quando o mundo vira as costas para eles, nós estamos dizendo: nós amamos vocês e estamos oferecendo um tratamento de qualidade.
Cine Set – Quem seria a sua Ingrid Luna? Não pode ser Jennifer Lopez (risos).
Tonatiuh – Eu não admiro pessoas e sim admiro personagens, quando falamos de atuação. Mama Rose, em Gypsy, todo o elenco de As Super Gatas (Golden Girls), Lucille Bluth (Arrested Development). Acho todos fantásticos; são engraçados e devastadores ao mesmo tempo. Existe algo divertido nesses personagens selvagens.
Amo também os mundos de Pedro Almodóvar, de Hayao Miyazaki, inclusive, do Bill Condon. Minha Ingrid Luna é a minha obsessão por personagens e mundos.













