Na live realizada no YouTube pelo curso de Jornalismo da UFAC, em 23 de setembro de 2026, uma pergunta serviu como ponto de partida: “Existe um cinema acreano?”
A pergunta, embora pareça simples, precisa ser deslocada. O cinema acreano existe desde que se filmou o primeiro filme no Acre. A questão não é saber se ele existe, mas perguntar: que cinemas acreanos queremos?
A mudança parece pequena, mas altera o problema. Perguntar que cinemas queremos é discutir estética, política e modelos de produção: que formas de fazer cinema queremos construir no Acre, que imaginários queremos pôr em circulação, que relações queremos estabelecer entre cinema, território e sociedade. Esse “nós” não se limita a quem realiza filmes: inclui quem os pensa, exibe, financia e assiste, todos os que fazem o cinema existir no Acre.
Na live, surgiu a ideia de que o filme precisa dar retorno. Pensado em termos econômicos, esse retorno é uma dimensão importante, sobretudo para quem trabalha profissionalmente com cinema e precisa fazer dele uma atividade sustentável. Mas seria possível reduzir o retorno de um filme ao dinheiro que ele produz?
Um filme também pode produzir pensamento, memória, debate, formação, circulação e novas possibilidades de criação. Pode provocar uma discussão que não existia, registrar uma experiência que poderia desaparecer, formar alguém que depois realizará outro filme, fazer circular uma imagem do Acre que jamais encontrou espaço. Esses retornos são menos mensuráveis. Nem por isso deixam de existir.
Isso nos leva aos modelos de produção. Pensar o cinema acreano é pensá-lo para além das leis de incentivo e do modelo industrial como únicas formas possíveis de produção. Não se trata de negar a importância das políticas públicas, mas de perguntar se elas devem ser os únicos horizontes. A maneira como um filme é financiado, produzido e colocado em circulação é uma questão política: determina quem consegue produzir, quais projetos encontram espaço e quais formas de cinema conseguem existir. Que modelos podem surgir das condições específicas do Acre, em vez de reproduzir estruturas pensadas a partir de outras realidades? Isso inclui desde modelos comunitários e de autofinanciamento até outras formas de organização coletiva da produção, tema que merece uma discussão à parte.
Há ainda uma questão anterior. Quando falamos em cinema, quase sempre reduzimos a discussão ao filme, como se uma cinematografia pudesse ser medida pela quantidade de obras realizadas. Mas o cinema também existe na crítica, na produção de conhecimento, nos festivais e mostras, nos livros e pesquisas que constroem sua memória, na formação de público. O filme é a parte mais visível desse campo, mas não o esgota. Uma cinematografia se forma pelas imagens que produz, pelo pensamento sobre elas, pelos espaços que cria para discuti-las, pelas relações com seus públicos e pela memória que constrói sobre a própria trajetória.
É aí que a discussão sobre identidade se complica. O que significa um filme ser acreano? Bastaria ter sido filmado no Acre, ter realizadores ou atores do estado, falar de certos lugares, personagens ou temas? Esses elementos podem fazer parte de uma cinematografia, mas não deveriam funcionar como requisitos para definir o que é reconhecido como cinema acreano. Uma cinematografia não precisa explicar permanentemente o território que a produz; pode se afirmar pela liberdade de não representá-lo de maneira previsível. O Acre pode aparecer na tela como paisagem, memória, conflito, linguagem, experiência, imaginário. Mas também pode desaparecer da imagem e continuar presente na maneira como o filme é pensado, produzido ou relacionado com o mundo.
Por isso, falar em cinemas acreanos exige outras perguntas. Quem tem produzido esses filmes? Quem consegue produzir e quem fica de fora? Quais histórias são consideradas dignas de serem filmadas? Quem decide o que pode ser chamado de cinema acreano? Elas dizem respeito às condições de existência de uma cinematografia. Não basta produzir: é preciso criar condições para que os filmes existam, circulem, sejam vistos, discutidos e preservados, e para que exista pensamento sobre eles. Existe uma história cinematográfica no Acre muito maior e mais complexa do que aquilo que os editais, as políticas de incentivo e a própria produção conseguem registrar.
Voltamos, então, à pergunta inicial. A questão não é encontrar uma definição que encerre o que seria um cinema acreano, mas abrir espaço para diferentes maneiras de pensar o cinema e sua relação com o mundo.
Porque o cinema carrega uma maneira particular de olhar para a realidade, de interpretá-la, de produzir conhecimento sobre ela e de disputar os sentidos que damos ao mundo. Pensar os cinemas acreanos ultrapassa, assim, a ideia de representação de um território. O que está em jogo não é apenas como o Acre aparece nas imagens, mas a partir de onde se olha, o que se escolhe olhar, o que se coloca em questão e que outras formas de mundo esse olhar pode tornar possíveis.














