Uma das coisas mais bonitas da infância é quando uma criança tem o direito a simplesmente ser criança e exercer sua capacidade de brincar e imaginar diferentes mundos possíveis. Em “A Fabulosa Máquina do Tempo”, a diretora Eliza Capai parte desse exercício de sonhar para investigar o microcosmo de um grupo de meninas da cidade de Guaribas, no interior do Piauí. Em 2003, o município foi escolhido para ser o piloto do programa Bolsa Família, por ter um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHM) do país à época. As crianças que estrelam o documentário são, portanto, a cara de uma nova geração pós-implementação dessa política pública, e testemunhas diretas das mudanças da região nos últimos anos.
Logo na abertura do filme, vemos algumas dessas meninas brincando de fazer cinema: uma grita “ação!”, outra interpreta um Deus feminino ao contar a origem da mulher a partir da costela de Adão, e uma terceira surge com fones de ouvido e um cabo simulando um microfone boom. Esse é só o primeiro de vários momentos em que o longa nos convida a vislumbrar as diferentes visões de mundo dessas meninas a partir de uma abordagem lúdica, que propõe um paralelo entre o sonhar e o próprio fazer cinematográfico.
Assim, elas brincam de criar cenas e interpretar diferentes personagens a partir de situações que refletem e, às vezes, questionam, suas realidades, como acompanhar um culto na igreja evangélica, cuidar da casa e dos filhos ou até mesmo se casar. Em outros momentos, elas entrevistam suas próprias avós e mães, levando-as a confrontar um passado que não é só delas, mas de uma cidade ainda profundamente marcada por uma sociedade patriarcal. A máquina do tempo do título surge como uma metáfora nas brincadeiras, que sugere às meninas voltar no tempo para revisitar o passado ou sonhar com outros futuros.
Capai intercala esse jogo de fazer cinema com entrevistas com as próprias crianças sobre diferentes temas, como sua relação com a escola, família e religião, e registros do cotidiano das meninas, em que elas brincam na rua, discutem a primeira menstruação, vão à igreja, ou dançam uma música funk cuja letra elas nem mesmo entendem (“acabou a água, toma banho de leite”).
Esses registros não são ao acaso: é a partir deles que entendemos alguns elementos que moldam as vidas dessas meninas, como a presença da religião neopentecostal e seus dogmas ou o fantasma do alcoolismo que ronda seus pais, por exemplo. É interessante notar também a quase ausência total de homens ao longo do filme: o dia a dia dessas crianças gira quase todo em torno delas mesmas e suas mães, enquanto os pais são as figuras mencionadas sempre como o trabalhador que está na rua, longe da rotina familiar. No entanto, a proposta de Capai não é analisar esses elementos socioculturais, e sim registrá-los a partir da perspectiva das crianças. A ligação da cidade com o Bolsa Família, por exemplo, que justifica a escolha do município para a gravação do documentário, só é explicitada nos créditos finais.
O grande mérito de “A Fabulosa Máquina do Tempo” é mesmo deixar as crianças à vontade para imaginar, brincar e falar, sem reservas, e tratando-as de igual para igual, sem condescendência. Quando assume a posição de entrevistadora, por exemplo, a diretora as confronta sobre suas falas ou suas visões de mundo, como no momento em que ela e uma das crianças discutem se acreditam ou não no conceito de pecado, ou quando ela pergunta às meninas se elas entendem o que está por trás da letra do funk que estão dançando. Esse tratamento também se reflete nos enquadramentos externos das brincadeiras e situações cotidianas, que se mantêm na altura das protagonistas, e na câmera na mão que as segue numa abordagem naturalista.
Por fim, o documentário de Eliza Capai se torna, em si mesmo, uma cápsula do tempo capaz de, a partir do olhar daquelas meninas, lançar reflexões sobre a sociedade que as cerca e suas próprias transformações e desejos, ainda que não se debruce detalhadamente nessas reflexões. Capai entende o papel que sonhar tem como motor propulsor na vida dessas crianças, e lhes dá a oportunidade de se empoderar de seus sonhos a partir do dispositivo cinematográfico. Ao final, “A Fabulosa Máquina do Tempo” propõe que essas meninas sejam donas de seus próprios destinos, e o faz a partir de um exercício delicado e, acima de tudo, afetuoso com essas personagens.














