É todo um ecossistema. Os carros passam sobre o rio Capibaribe. Debaixo da ponte, os peixes nadam na água corrente. Nas margens do rio, lançando olhares uns aos outros, os que procuram por sexo.
Lá está Izaquiel (Caique Copque), atraído pelo olhar de um corpulento e misterioso pescador (Ítalo Martins), olhos de pedras brilhantes, corpanzil reluzente, alérgico a camisetas. Depois, no trabalho como faxineiro em um supermercado, lá está Izaquiel de novo, assistindo a dois clientes que se pegam de pé, ao lado do mictório.
Ele é transferido. Seu maior pesadelo: ele, gay, libertário e libertino, vai lavar os banheiros de uma igreja evangélica por alguns trocados. O pastor (Robério Diógenes, tremenda performance, assustador e carismático) não gosta dos seus brincos nem do seu esmalte. As tensões vão crescendo.
De tempos em tempos, Izaquiel retorna ao rio. O sexo é filmado pelos diretores Matheus Farias e Enock Carvalho como um ritual sobrenatural, com algo de possessão. O mergulho no Capibaribe é um espelho invertido do batismo no altar que Izaquiel higieniza diariamente. A noite é sobrenatural.
“A Margem do Rio” avança assim, coleando de mansinho pelo lamaçal do mangue, sem que a gente se dê conta. Funciona, não só porque seu ritmo é hipnótico, mas porque gostamos daquelas pessoas, daqueles rostos: desde as travestis que dividem casa com Ezaquiel, passando pelo brejeiro Roberto (Enio Cavalcante), crente convertido há pouco tempo, ainda tentado pelos vícios terrenos, e chegando no sempre formidável Carlos Francisco, em uma breve ponta.
Tudo guiado pela atenção esperta dos realizadores às interações cotidianas. E no centro, Caíque Copque, em uma comedida e eficaz performance. Sua química com Ítalo Martins é tamanha que ficamos na beira do assento, aguardando a próxima cena dos dois ansiosamente.
Esse tesão é entrecortado por uma tensão crescente: tiros e sirenes se tornaram comuns no manguezal. Quem não está paranoico é apenas mal informado.
O filme comete, talvez, um único pecado: o terço final, que chega com um estrondo apocalíptico, pede por uma catarse maior, que nunca vem. Saímos mais mornos do que deveríamos.
Mas até lá, “A Margem do Rio” desponta como exemplar de uma linhagem sob ameaça: a dos filmes que nos carregam feito enxurrada, sem que tenhamos ideia de para onde vamos.














