Admito que, para mim, The Dreamed Adventure é um filme extremamente cansativo. E isso se deve às escolhas que a diretora, Valeska Grisebach, faz ao empregar uma câmera distante que acompanha, por observação quase antropológica, por quase duas horas e meia, os passos de Veska (Yana Radeva) em um vilarejo na fronteira entre a Turquia e a Bulgária.
No primeiro momento, seguimos Said (Syuleyman Alilov Letifov), um homem que volta à cidade onde passou parte da juventude para resolver um problema. Conforme a narrativa avança, no entanto, Said sai de cena para dar lugar às desventuras de Veska, uma arqueóloga que se mete em variadas situações em busca de fazer o que é certo. Os dois fazem uma troca sutil de protagonismo, inversão esta que só se torna perceptível após um bom tempo acompanhando Veska.
Ela está sempre atenta às coisas que acontecem ao seu redor e andando de um lado para o outro, buscando ajudar os que lhe atravessam. No entanto, me sinto muito incomodada pela forma como Grisebach constrói sua protagonista e os lugares por onde ela passa.
Veska parece carregar em seu DNA uma sede por fazer justiça com as próprias mãos dentro de um vilarejo em que ela é uma mulher estrangeira. Consegue imaginar o perigo disso? Porque a roteirista, não. Por esse motivo, a coloca em situações extremas, como se ela fosse uma heroína social, a justiceira do povo. Assim, ela combate o tráfico de pessoas, o contrabando de gasolina e o machismo estrutural. Quase uma super-heroína.
O curioso é que, apesar de lhe oferecer essas aventuras, o roteiro não mostra uma possibilidade crível de finalização, uma vez que a rotina de Veska parece ser sempre: ir ao trabalho, encontrar um problema, sair para resolvê-lo, participar de um grande jantar com seus amigos. Essas cenas se repetem tanto que, em dado momento, me indaguei se ela não estaria vivendo um “dia da marmota”. Na verdade, esses momentos de confraternização diária da personagem são o mote para as situações em que se mete.
Nessas cenas em que os personagens se encontram para comer, dançar e beber vinho, as histórias e conversas surreais do vilarejo surgem, e Grisebach as retoma tempos depois como pontos importantes para o desenvolvimento da trama. Assim, essas pessoas dão espaço para o campo e os caminhos que Veska percorre para resolver o que acredita que precisa ser restaurado.
Assim, The Dreamed Adventure busca nos mostrar a força que Veska possui diante de um sistema patriarcal que poderia silenciá-la, mas não o faz. É uma pena, no entanto, que seu percurso soe tão antinatural para mim.












