Uma ironia cruel que “Dragões“ tenha sido projetado no Festival do Rio no clima lúgubre que nos infectou após o primeiro turno das eleições 2026. É que o documentário de Miguel Antunes Ramos consiste em 84 minutos de imagens publicadas pelo crápula tornado presidente, Jair Messias Bolsonaro.

Um prospecto dos mais desagradáveis em qualquer contexto — quem dirá o atual. Portanto, se você quer nos fazer assistir a horas de Bolsonaro, é melhor ter algo a dizer.

Ramos até tem algo a dizer, mas de forma confusa, imprecisa. Sua hipótese é das mais simples: a ascensão de um reles deputado ignoto a Presidente da República passa fundamentalmente pelo regime de imagens que ele aprendeu a controlar. Até aí, nada que não saibamos.

De resto, fica o espanto do diretor, relatado em tom ensaístico, ante o “insuportável fluxo de imagens” do presidente criminoso. Esse espanto todos nós temos, mas o que mais está sendo postulado aqui?

Na verdade, o que “Dragões” não nota — ou talvez note menos do que deveria — é que Bolsonaro não se tornou presidente apesar de ser grotesco, mas precisamente por isso. Ramos pode até ser um bom semiólogo, mas a disputa semântica em torno de palavras como “verdade” simplesmente não dá conta de tudo que está em jogo.

Ramos nota, por exemplo, que, já no início de sua ascensão midiática, a câmera que registra Bolsonaro ganhou autonomia: não mais um espelho do tom institucional da velha mídia, mas uma câmera móvel, de baixa definição. Ele também nota, acertadamente, que a baixa definição, longe de ser um defeito, é uma estratégia, algo como um índice de autenticidade.

Mas o que é preciso frisar é que esse mesmo ruído digital, esse pixelado tosco, é o que nos leva a atentar não aos detalhes bem definidos, mas ao assombro das imprecisões. Não importam as particularidades dos rostos ou o sentido preciso das palavras, mas sim a impressão avassaladora da multidão, o seu estrondo fervoroso.

Em outras palavras, Bolsonaro não opera pela via semântica, mas pela afetiva — não no sentido do afetuoso, caloroso, mas daquilo que apela ao sensacional, às nossas sensações. Ojeriza e espanto em alguns, admiração em outros.

Daí a importância da autonomia de sua câmera: não apenas para que Bolsonaro se revele diretor de um cinema pérfido, mas também porque, manuseando sua câmera com um pau de selfie ao pular de asa delta, ou deixando-a ao encargo dos minions que o rodeiam, a ênfase assim recai em como sua figura contagia a objetiva. É importante que sua câmera seja errática, que saia dos eixos, que seja tosca — enfim, que nos convoque afetivamente.

Parece que toda essa dimensão, central ao bolsonarismo, é deixada de lado pelo diretor. A esse respeito, ele só tem a nos oferecer seu assombro. “Dragões” nos convida a tomar parte em seu espanto, mas há algo de míope e autocentrado em sua perplexidade.