A ascensão da extrema direita não pode ser compreendida sem olhar para as redes sociais. Embora não sejam as únicas responsáveis por esse fenômeno, plataformas como o Facebook desempenharam um papel importante na circulação de discursos extremistas, na amplificação de teorias conspiratórias e na construção de ambientes nos quais a desinformação encontra condições favoráveis para se espalhar. É justamente nesse terreno que O Outro Lado das Redes encontra sua maior relevância: questionar até que ponto empresas de tecnologia podem continuar alegando neutralidade enquanto suas decisões afetam diretamente a vida pública.
Ao acompanhar a denúncia de Frances Haugen, o filme dirigido por Aaron Sorkin expõe as contradições de uma estrutura empresarial que transforma a atenção dos usuários em mercadoria. Quanto mais tempo passamos conectados, maior o potencial de lucro e conteúdos capazes de provocar indignação, medo e revolta podem se tornar especialmente atraentes nesse modelo. O problema ultrapassa a experiência individual de navegar pelas redes: quando a lógica do engajamento passa a interferir na maneira como milhões de pessoas compreendem o mundo, as consequências deixam de ser apenas comerciais e assumem uma dimensão política.
Essa discussão ganha contornos ainda mais graves quando observamos a ascensão da extrema direita em diferentes países. No Brasil, o Facebook e outras plataformas digitais se tornaram importantes espaços de circulação de narrativas bolsonaristas, inclusive durante a pandemia de COVID-19. Pesquisas acadêmicas identificaram uma presença expressiva de desinformação sobre a crise sanitária em páginas e grupos alinhados à extrema direita e a Jair Bolsonaro, com conteúdos que questionavam medidas de prevenção, desacreditavam a ciência e favoreciam discursos contrários às recomendações das autoridades de saúde.
Não estamos falando de uma disputa abstrata entre opiniões divergentes. Durante uma crise sanitária, a disseminação de notícias falsas sobre vacinas pode comprometer a confiança na ciência e influenciar decisões que afetam a saúde coletiva. Um estudo publicado em Science Advances mostrou que, mesmo após a implementação de políticas de remoção de conteúdo antivacina pelo Facebook, o engajamento geral com esse tipo de material não diminuiu no período analisado. A pesquisa também identificou problemas na aplicação dessas políticas, incluindo a remoção de conteúdos favoráveis à vacinação.
No Brasil, esse cenário se agravou com a atuação de lideranças políticas que questionaram publicamente a gravidade da pandemia, desacreditaram orientações sanitárias e promoveram tratamentos sem eficácia comprovada. As redes serviram como canais para a circulação e a repetição dessas narrativas, conectando desinformação, identidade política e desconfiança nas instituições. É importante reconhecer que as plataformas não inventaram sozinhas o negacionismo, tampouco explicam isoladamente a ascensão da extrema direita, mas ajudaram a criar condições para que determinados discursos alcançassem públicos numerosos e fossem reproduzidos continuamente.
É nesse ponto que o filme se torna maior do que sua própria narrativa consegue explorar. Ao investigar os mecanismos internos de uma gigante tecnológica, a produção aponta para uma questão que continua urgente: até que ponto uma empresa pode se isentar das consequências de um sistema que ela própria desenvolveu? A liberdade de expressão não elimina a responsabilidade sobre as estruturas utilizadas para distribuir informações, especialmente quando essas estruturas podem favorecer a circulação de conteúdos enganosos.
Entretanto, apesar de um tema excepcional, Aaron Sorkin nem sempre consegue transformar sua denúncia em uma experiência cinematográfica igualmente contundente. O roteiro privilegia explicações e confrontos verbais, conduzindo o espectador por uma sucessão de argumentos que, embora relevantes, por vezes reduzem a complexidade do debate. A direção mantém o ritmo da investigação, mas parece mais preocupada em organizar as informações do que em explorar visualmente as contradições de um sistema que influencia a maneira como enxergamos a realidade.
As atuações ajudam a sustentar a narrativa, especialmente pela maneira como a denúncia individual se contrapõe ao poder de uma corporação. Ainda assim, a construção de alguns personagens tende a simplificar conflitos que poderiam revelar com maior profundidade os interesses econômicos, políticos e sociais envolvidos. Afinal, o problema não se resume à existência de indivíduos dispostos a esconder informações, mas envolve um modelo de negócios que precisa ser questionado para além das intenções pessoais de seus executivos.
O filme apresenta questões fundamentais, mas poderia aprofundar melhor como as plataformas se relacionam com estruturas de poder, campanhas políticas e movimentos organizados de desinformação. Ao concentrar boa parte de sua energia na denúncia corporativa, deixa em segundo plano algumas das consequências humanas e democráticas que tornam essa discussão tão urgente.
Ainda assim, é difícil assistir à produção sem pensar no presente. Em um cenário no qual notícias falsas continuam circulando, a ciência se transforma em alvo de disputas ideológicas e discursos autoritários encontram espaço para se fortalecer no ambiente digital, discutir a responsabilidade das plataformas deixou de ser uma questão restrita ao universo da tecnologia. Trata-se de discutir democracia, saúde pública e o próprio direito de uma sociedade tomar decisões com base em informações confiáveis.
O Outro Lado das Redes pode não alcançar toda a complexidade de seu objeto, mas é imprescindível. Ele nos lembra que as redes sociais não são apenas espaços nos quais a política acontece, são também estruturas capazes de influenciar a maneira como ela é disputada. E, quando o lucro depende de manter as pessoas conectadas, resta uma pergunta incômoda: quem assume a responsabilidade quando o engajamento vale mais do que a verdade?














