Que tipo de problema pode quebrar um relacionamento sério, sólido e feliz? Essa foi a pergunta que me acompanhou durante a exibição de “Gentle Monster”, filme dirigido por Marie Kreutzer (Corsage) e magneticamente protagonizado por Léa Seydoux (Azul é a cor mais quente). Estamos diante de uma história desconfortável sobre confiança, dilemas morais e a percepção de que a pessoa a quem amamos pode ser um monstro; mesmo que carregue tudo aquilo que os atrai a ela. 

Lucy (Seydoux) e Philip (Laurence Rupp) são um casal de artistas. Ela, uma musicista – cantora e pianista -, e ele, um filmmaker; a relação deles transborda amor, companheirismo e desejo. Contudo, profissionalmente, enquanto a carreira dela avança, o marido está esgotado; a solução que encontram, em prol do bem familiar, é vender tudo que tem em Munique, onde a história se passa, e ir pra uma casa no interior, em meio a natureza e grande o suficiente para que possam criar o filho com muita liberdade e imerso em criatividade. Tudo parece ir bem nessa redoma idílica, até que, numa manhã, a polícia bate a sua porta para levar o esposo e seus equipamento de trabalho. A acusação? Pornografia infantil.

A câmera de Judith Kaufmann (A Sala dos Professores) volta seu olhar para Lucy e o silêncio que a abraça nessa situação. A personagem entra num dilema que tem como variáveis seu filho, o amado e a verdade. O interessante é como o roteiro não a torna uma vítima ou uma heroína; mas está preocupado em mostrar como essa situação a afeta internamente. Lucy é o grande foco da narrativa, a qual até tenta fazer um paralelo entre a musicista e o cotidiano da policial que investiga o caso, mas não funciona, porque é o magnetismo de Seydoux para quem nossos olhos se voltam. 

Ela resiste a verdade, enquanto intimamente tudo o que acredita rui. A casa, por exemplo, é abandonada por ela e o filho, que vão morar com sua mãe (Catherine Deneuve) em Munique, enquanto Lucy precisa lidar com essa situação e decidir seguir em turnê. Nesse aspecto, o roteiro usa a música para exemplificar sua intimidade, ao expor seus sentimentos por meio das canções e na lembrança de que homens escrevem belas músicas, mas não sabem falar sobre seus sentimentos. O que a conduz a pensar em suas memórias com Philip, o questionamento acerca do que é real e como reconstruir o seu lar e admiração quando todo esse turbilhão passar. Se passar.

Enquanto ela usa sua arte para nos guiar pelos seus sentimentos, Philip tem as expressões faciais como o revelador de suas emoções. Rupp empresta um olhar gentil, de um homem que ama sua esposa e que lhe dói arrastá-la para essa situação, mesmo com poucas palavras. Me chama atenção como esse ar de coitado paira em torno dele – sendo um grande atrativo para a mulher forte que reside em Lucy – e lhe confere certa fragilidade, a qual é importante para criar essa dúvida sobre a verdade em torno de suas ações.

Isso evidencia que “Gentle Monster” é um filme mais preocupado na relação familiar do que no crime em si. Lucy tenta de todas as formas se agarrar a esperança de um engano, embora a dúvida esteja plantada na sua mente. Em determinada cena, ela revela que o ama tanto que dói. Um sofrimento misturado a incerteza e as memórias de um casamento feliz e cheio de afeto. Essa é uma das razões também que nos faz perceber o quanto tudo que conhecemos sobre Phillip seja pela perspectiva dela, por isso ele é um homem gentil, amável. Mas se você reparar bem – e é o que a construção de Kreutzer nos conduz – esconde uma perfídia camuflada pelo seu olhar triste. Olhar muito para esse homem afável e doce nos revela alguém sensível e que não consegue se estabilizar ao lado de uma mulher que venceu pelo caminho mais difícil: a arte. 

Léa Seydoux é o grande destaque da produção. Ela canta, toca e fala mais de um idioma em cena. Ainda assim, o filme não consegue explorar toda a força que sua personagem precisa ter, porque fica alternando entre sua narrativa e a da policial, que deveria ser um espelho de Lucy, mas não consegue lidar com o pai dependente e nem tampouco com as questões profissionais, sendo eclipsada pela trama principal. 

Fico pensando no quão difícil deva ser amar alguém que te decepciona ou que você acreditava conhecer. Para além de Léa Seydoux, o maior trunfo de “Gentle Monster” é nos mostrar como uma pessoa meiga e amável pode estar escondendo alguém aterrorizante dentro de si. Não chega a ser um projeto memorável, mas deixa a frieza de quando o amor dói. Admito que isso me deixa triste.