As animações sempre estiveram presentes na História do Cinema. De fato, a própria origem do cinema se confunde com a origem da animação, tendo os mesmos princípios de reprodução.
Apesar de ser uma linguagem que daria ao cinema níveis ilimitados de possibilidades, as animações nem sempre tiveram um reconhecimento da indústria à altura de filmes live-action, estes últimos sempre considerados superiores no inconsciente coletivo por terem “gente de verdade”. De tal modo, não existia uma categoria na cerimônia do Oscar específica para essas produções, até 2002.
Para entender o processo de indicados e vencedores desta categoria, precisamos de um pouco de contexto histórico.
A Perda da Hegemonia da Disney
Durante décadas, a Disney se manteve incólume no posto de único grande estúdio de animação nos EUA. Tentativas de uma concorrência ocorreram, como os filmes dos estúdios de Don Bluth, ex-animador da Disney (responsável pelo sucesso “Anastasia” e o fracasso “Titan A.E”), mas nunca chegou perto de se consolidar como uma empresa à altura da Disney, chegando até mesmo a falir após o segundo filme.
Isso até que chegaram os anos 1990, em que, apesar da Disney estar vivendo um de seus melhores momentos – a chamada Era do Renascimento (com clássicos como “A Pequena Sereia”, “Aladdin”, “A Bela e a Fera” e “O Rei Leão”) –, uma disputa de egos entre o então CEO da companhia Michael Eisner e o presidente da The Walt Disney Studios, Jeffrey Katzenberg, fez com que o mesmo fosse demitido do estúdio do camundongo.
Após sair da Disney, Katzenberg viria a fundar a Dreamworks juntamente com o cineasta Steven Spielberg e o produtor David Geffen, que, logo em seus primórdios, produziria animações com uma qualidade que rivalizaria com a Disney.
Começa a surgir a primeira grande concorrente do estúdio do castelo, investindo não apenas em 2D (inspirando-se, tanto em técnica quanto em conteúdo, nos clássicos musicais da rival), mas em 3D, tecnologia na qual a Disney também já estava investindo a partir de sua parceria com a Pixar Animation Studios, que lançou seu primeiro longa-metragem (Toy Story) já nessa década.
Assim sendo, o primeiro prêmio da categoria, ironicamente, não foi dada a uma produção da toda-poderosa Disney, e sim a sua recém-chegada rival Dreamworks, com “Shrek”, um filme que, em sua essência satírica de contos de fadas, já evidenciava o rancor de Katzenberg para com a gigante da animação.
A Ascensão da Pixar
Na virada do século, a Disney, mais precisamente a Disney Animation, passaria a viver uma de suas piores fases, em contraste com o esplendor da década de 1990. A tentativa de se distanciar de sua fórmula característica de contar histórias levou a mais erros do que acertos em cativar o público.
Os sucessivos fracassos de bilheteria do estúdio amargavam também derrotas nas indicações ao Oscar. Em compensação, a Pixar vinha crescendo em qualidade, com sua bem consolidada energia vanguardista, lançando um sucesso absoluto atrás do outro, tanto de público quanto de crítica, com expressivas bilheterias. “Procurando Nemo”, por exemplo, chegou a entrar para o Guinness Book por arrecadar a maior bilheteria em todos os tempos para uma animação.
De parceira, a Pixar passou a ser propriedade da Disney a partir de 2006. Portanto, apesar da má fase, a companhia do Mickey tinha sua querida Pixar para vencer os prêmios para ela, e não foram poucos: 11 no total até agora. O estúdio do abajur ambulante tem sido o recordista de prêmios da indústria nesta categoria, se consolidando como um dos mais prestigiados de Hollywood. Quase todo ano, a presença da Pixar nas indicações é certa. Dentro do número de edições do prêmio, a porcentagem de indicação da Pixar na categoria é de surpreendentes 86,96%.
Apesar de seu “Monstros S.A” ter perdido para “Shrek” na primeira edição da categoria, por outro lado, nos anos seguintes, a Pixar se mostraria a grande campeã da categoria. A primeira vitória foi já com seu filme seguinte, “Procurando Nemo” em 2004, e depois, mais uma vez, com “Os Incríveis” no ano seguinte.
Posteriormente, quatro vitórias sucessivas na categoria chegaram a acontecer:
- “Ratatouille” em 2008;
- “Wall-E”, em 2009;
- “Up”, em 2010;
- “Toy Story 3”, em 2011.
Os dois últimos, aliás, ainda tiveram a proeza de também serem indicados ao Oscar de Melhor Filme, feito esse alcançado apenas por uma única animação até então, “A Bela e a Fera”, em 1992.
De lá para cá, são pouquíssimos os casos em que a empresa responsável por “Toy Story” não obtenha uma vitória de Melhor Animação nos anos em que concorre. Considerando que, até 2007, a Pixar lançava um filme a cada dois anos, as vitórias de “A Viagem de Chihiro”, anime do Studio Ghibli, em 2003; e de “Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais”, em 2006 (a segunda e última vitória da Dreamworks), não significaram derrotas do estúdio do abajur saltitante, pois aconteceram em anos em que a Pixar não havia lançado um filme.
Assim, a Pixar possui uma taxa de vitória de aproximadamente 37% em relação ao total de filmes que produziu e cerca de 48% considerando as edições do Oscar realizadas.
Em comparação, a Disney Animation ainda está bem abaixo desse desempenho, com 17,4% de vitórias nas edições do prêmio, enquanto a DreamWorks Animation apresenta cerca de 13%.
Com exceção dos casos já citados, até o ano de 2020, os casos de derrota ou ausência da Pixar na categoria foram os seguintes:
- em 2007, “Carros” perdeu para “Happy Feet – O Pinguim”, da Warner;
- em 2012, “Carros 2” sequer foi indicado; vitória de “Rango”, da Nickelodeon Movies;
- em 2014, “Universidade Monstros” sequer foi indicado; vtória de “Frozen” de sua empresa-irmã.
- em 2017, “Procurando Dory” sequer concorreu ao prêmio; vitória de “Zootopia”, de sua empresa-irmã.
- em 2019, “Os Incríveis 2” perdeu para “Homem-Aranha no Aranhaverso”, da Sony Pictures Animation.
Ou seja, desde 2002 – o ano em que a categoria de Melhor Animação passou a existir – até 2019 – o último ano da década passada – de 19 filmes que a Pixar lançou, 10 deles levaram a estatueta dourada.
Enquanto isso, a promissora Dreamworks, que começou como uma rival na crescente indústria de CGI à altura da Pixar, passou por uma crise estrutural pela ambição de lançar múltiplos filmes por ano, perdendo seu controle de qualidade e o gerenciamento de custos de produção muito elevados. Isso levou a empresa aos poucos a se dedicar mais a produções televisivas e de streaming, sobretudo seriados spin-offs de seus clássicos longas, inclusive numa parceria com a Netflix. Com isso, passou a não mais ser presença tão constante nas indicações ou presente com indicações fracas à estatueta dourada.
Já a Disney Animation, como se pode verificar na lista anterior, começou a demonstrar uma significativa melhora na disputa na década de 2010, conseguindo lançar produções mais populares que a própria Pixar, outrora a empresa que conseguiu “segurar as pontas” da Disney no início dos anos 2000.
O Retorno da Disney Animation
A partir da compra da Pixar pela Disney em 2006, John Lasseter, chefão criativo e um dos fundadores da Pixar, passaria a ser chefe de todo o departamento de animação da Disney.
O que se verificou com isso ao longo do tempo, apesar do regular apogeu da Pixar, foi a gradual ascensão da Disney Animation.
Sob nova liderança, o estúdio conseguiu voltar à boa forma, mudando o foco para o 3D e alternando criativamente entre projetos apoiados na abordagem clássica de adaptações literárias musicais, típica do estúdio (“A Princesa e o Sapo”, “Enrolados”, “Frozen”, “Moana”) e obras modernas de ficção científica e/ou oriundas de ideias originais (“Detona Ralph”, “Operação Big Hero”, “Zootopia”).
Assim, a Disney Animation passou a surpreender em sua presença no Oscar, com três vitórias na década passada (“Frozen” [2014], “Operação Big Hero” [2015] e “Zootopia” [2017]), inclusive destacando-se em relação a sua irmã concorrente no primeiro e último casos.
Mesmo com a demissão de Lasseter da chefia da Disney em 2017 após acusações de conduta inapropriada com mulheres, a Disney continua seu legado criativo de forma consistente, não sem boas concorrências emergindo.
A Diversidade na Década de 2020
Como resultado de mudanças estruturais adotadas pela Academia, muito em razão dos protestos do #OscarSoWhite em 2016, não obstante sendo o ano da primeira eleição de Donald Trump, a cerimônia passou a valorizar ainda mais produções estrangeiras. A grande vitória do sul-coreano “Parasita” no Oscar de Melhor Filme em 2020 foi emblemática nesse sentido.
Na categoria animada, apesar da vitória da Pixar nos dois primeiros anos da década presente (um deles, com o excelente “Soul”), os animes e produções europeias passaram a ter mais visibilidade. O japonês Hayao Miyazaki conquistaria seu segundo prêmio com “O Menino e a Garça” em 2024. Aliada a isso, há a ascensão da gigante do streaming Netflix na premiação, chegando à vitória em 2023 com a co-produção EUA / México / França “Pinoquio”, de Guillermo Del Toro.
Além disso, novas técnicas de animação arrojadas – numa “estética de concept art” e o casamento cada vez mais simbionte entre 2D e 3D – resultaram na revitalização de concorrentes estadunidenses, como a Sony Pictures Animation (com projetos inovadores como “Aranhaverso”) e a própria Dreamworks, que voltou ao páreo com “Gatos de Botas 2” (2023) e “Robô Selvagem” (2025).
O mais recente favorito à estatueta, “Guerreiras do K-Pop” (da própria Sony), adiciona a esse estilo “3D com cara de 2D” maneirismos gráficos típicos dos animes, proporcionando uma experiência única. Enquanto isso, o segundo maior favorito deste ano é a continuação do sucesso “Zootopia” da Disney. O representante da Pixar, o belo e modesto “Elio” não chega forte na disputa.
Se antes a Pixar reinava soberana, agora ela tem lidado com concorrentes cada vez mais fortes. A vitória do europeu “Flow” no ano passado e o favoritismo atual de uma coprodução EUA/Coréia do Sul (“Guerreiras do K-Pop”) acena para uma valorização de produções para além de Hollywood e para a novidade em termos de linguagem.
Haja vista os prêmios nessa temporada, que apontam para mais uma vitória da promissora Sony, resta ver quem leva a melhor na disputa, entre o estilo arrojado moderno da Sony ou o CGI mais clássico, mas igualmente atraente, abraçado pela Disney desde a década passada – e com uma potente história sobre respeito à diversidade que ecoa a consciência social dos novos tempos cada vez mais presente e necessária.


















