O cineasta iraniano Jafar Panahi já vive em um filme de suspense da vida real: o artista, que ganhou projeção internacional com filmes como O Balão Branco (1995), Isto Não é um Filme (2011) e Táxi (2015), é perseguido em seu país. Ele chegou a ser proibido de filmar e a passar meses na prisão por questionar aspectos do regime dos aiatolás.

Agora, em seu novo filme, A Simple Accident, ele resolve, de modo apropriado, fazer um suspense para marcar sua volta às telas. É um filme tenso com pitadas de humor sombrio, e que não deve lhe fazer favores junto ao governo de Teerã.

Na história, um evento do acaso – o acidente do título – faz com que os caminhos de um homem de família e um mecânico se cruzem. O homem (Ebrahim Aziz) não percebe, mas é reconhecido pelo dono da oficina (Vahid Mobasseri) onde leva seu carro para um conserto. O mecânico começa a seguir o misterioso estranho e acaba sequestrando-o, convencido de que ele é o homem que o torturou na prisão, enquanto estava sob custódia do Estado. Ele quer matá-lo, porém como não tem certeza completa da identidade do homem, acaba recrutando outros conhecidos para ajudá-lo – e não é que muita gente também foi torturada por ali?

Nesses momentos em que estranhos se juntam à busca do mecânico pela confirmação da identidade do homem, A Simple Accident adquire um tom quase cômico – normalmente essas coincidências seriam sinal de problemas no roteiro, mas aqui fazem parte do painel que Panahi deseja criar. As reviravoltas do roteiro também ficam a um passo do surreal, às vezes, mas de novo fazem parte da visão do autor sobre o quão absurda ficou a vida em seu país. E os atores embarcam na proposta, vendendo a realidade das situações sem nenhuma nota falsa no elenco. 

Embora A Simple Accident sempre apresente um aspecto de sátira, chega um ponto em que as coisas param de ficar engraçadas. O fato de que várias pessoas parecerem estar prontas para cometer atos de violência é algo que o filme sublinha até a sua conclusão, que infelizmente não tem tanta força quanto o resto da história que a precedeu.

Mas isso acaba não sendo um problema tão grande, pois a visão do diretor é precisa em sua fábula moral, que não deixa de tocar na noção do sonho do oprimido em se tornar opressor. A Simple Accident é um filme nervoso feito por alguém que sabe do que está falando, e não deixa também de ser um novo ato de desafio de um artista meio raro hoje em dia, o que arrisca sua liberdade e, porque não, sua própria vida a cada nova obra.