A vida após a morte é um assunto que desperta curiosidade em muitas pessoas e Tim Burton encontra uma maneira de discuti-la de forma lúdica em “Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem”. Sinto, porém, que o filme está mais atrelado a uma memória afetiva nostálgica do que em ser efetivamente uma grande obra. 

Essa é a primeira vez que assisto “Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem” e a sensação que fiquei é de estar acompanhando uma narrativa que migra de foco a cada virada sem que isso seja introduzido e possibilite que o filme alcance seu potencial máximo. O personagem-titulo, por exemplo, só é explorado na parte final da narrativa, cabendo a Adam (Alec Baldwin), Bárbara (Geena Davis) e Lydia (Winona Ryder) tomarem o protagonismo para si antes que ele assuma. A escolha resulta numa produção irregular e que se perde na narrativa que quer apresentar.

Adam, Bárbara e Lydia

Acompanhamos o casal Adam e Bárbara que sonham em usufruir a casa durante as férias. Os dois, entretanto, sofrem um acidente de carro e falecem, sendo condenados a estarem aprisionados a casa, enquanto observam-na ser transformada pela família de Lydia. O roteiro coloca o casal e Lydia em uma situação complementar: a menina precisa de acolhimento e a morte os penaliza de não poderem ter o filho que planejavam. A relação que nasce entre eles é o ponto alto de “Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem”, considerando o quão bem construída é. 

Há um encontro entre desajustados: desde o início, a narrativa apresenta o casal como pessoas que não se encaixam ao que se espera socialmente deles, em paralelo, Lydia também não consegue ser aceita dentro do núcleo familiar. O pai (Jeffrey Jones) representa o arquétipo parental que se preocupa em prover, sem transmitir afeto, além de ter uma visão capitalista acerca de tudo ao seu redor. A madrasta (Catherine O’Hara) também a afasta, atuando como alguém que aprecia arte elitista, as duas tem estilos divergentes o que as coloca em pontos diametrais. Nesse conflito, o pai trata a personagem de Ryder como se fosse um objeto a ser desconsiderado. O que acontece com o casal que tem sua casa vendida logo que morrem. Ambos desajustados e descartáveis que se encontram. 

O estranho mundo de Burton

Se por um lado a narrativa é assimétrica, a estética particular do diretor destaca-se, já nos direcionando a temática gótica que predomina seu universo audiovisual. Nesse projeto, em especifico, ocorre uma fusão entre o dia dos mortos e o Halloween, trazendo elementos das duas culturas americanas como o manual dos mortos e os figurinos assinados por Aggie Guerard Rodgers (“Star Wars: O Retorno do Jedi”). Assim, Burton entrega uma narrativa com tons macabros e um humor ácido que chega de acordo com o desenvolvimento de seus personagens, ou seja, não consegue alcançar a todos. 

Como um bom contador de histórias, o diretor aborda a morte, o sobrenatural e a curiosidade humana de um ponto de vista clichê, jocoso e criativo. Tudo isso adornado por um toque de mistério e escuridão, os quais englobam o horror e a aceitação acerca da condição humana dentro de um viés fantasioso. Assim, a morte passa por uma ressignificação afim de ajudar o público a lidar melhor com ela. Nesse sentido, Beetlejuice pode ser um clichê bem-vindo a Sessão da Tarde.