É noite e o azul-chumbo de um céu sem estrelas recai sobre as pastagens. Um búfalo amarrado a uma árvore grunhe e reclama até finalmente soltar-se. Ele corre livremente pelo campo até ser recuperado pelo seu dono, um aldeão vestido com uma espécie de tanga, enquanto uma criatura de olhos vermelhos os observa. 

A sequência acima, que abre “Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, não é retomada no restante do filme. Exceto, sim, pelo gesto do aldeão, ao puxar o búfalo de volta por uma corda — esse gesto reaparece mais tarde, em uma sequência de fotos igualmente desconectada do filme que vemos.

As fotos, que marcam o início do terço final de projeção, mostram soldados posando ao lado de um homem-gorila. Fenômeno sobrenatural (bastante provável, dado o restante do filme) ou simplesmente alguém numa fantasia de gorila, não sabemos. Mas é importante resistir à tentação de decifrar a qualquer custo as imagens de Apichatpong Weerasethakul, o primeiro tailandês a receber a Palma de Ouro, justamente por este misterioso filme de 2010.

“Resistir à tentação”? Ora, mas quando os soldados aparecem nas tais fotos, não estaria Apichatpong criando uma alegoria sobre o aniquilamento do passado pela tirania militar (a Tailândia conta com décadas de diferentes governos autoritários de homens fardados)? Sim, claro. Mas não podemos esquecer que esse é também mais um interlúdio inusitado em um filme cheio deles.

Na verdade, quando a primeira foto pipoca na tela, a do soldado levando o homem-macaco por uma corda, o efeito é tão desconcertante que a imagem se torna até assustadora. O que por si só tem uma força muito maior do que qualquer verdade secreta que o crítico, em sua pretensa “tradução”, possa revelar.

O que é importante, senão acabamos por atar a explicações fáceis um filme que, como o búfalo, não curte muito ficar preso. Vida e morte, humanos e espíritos se misturam em um caleidoscópio embalado pelo chilrear incessante das florestas tropicais. Não há tempo, não há espaço. Como diz um espírito em dado momento da projeção, os fantasmas não se prendem a lugares, mas a pessoas.

Numa primeira olhada, talvez seja o filme mais impenetrável de Apichatpong, o que não deixa de ser curioso, dado seu sucesso em Cannes. Mas em 2010, o diretor já havia se tornado figurinha carimbada na Riviera. Em 2002, ganhara a mostra Un Certain Regard com “Eternamente Sua”. Em 2004, veio o Prêmio do Júri por “Mal dos Trópicos”. A Palma parecia simplesmente seu destino natural, mais cedo ou mais tarde.

E se é misterioso, também é verdade que “Tio Boonmee” se revela um longa extremamente caloroso e tocante. Boonmee, moribundo, recebe a cunhada e o sobrinho em sua fazenda no nordeste da Tailândia. A cunhada, mulher da cidade grande, é acossada pelos mosquitos. A natureza está em desequilíbrio.

Mais tarde, Boonmee confessa que sua doença é fruto do carma: não só ele tem o sangue de infinitos insetos nas mãos, assassinados pelo pesticida que tem usado, como também o dos comunistas que matou. Apichatpong não esconde o fato de estar rodando em Nabua, vilarejo que sofreu dura repressão durante os anos de guerrilha comunista na Tailândia, entre as décadas de 1960 e 1980. Os homens da vila, tremendo a violência, fugiram para a selva.

Agora, a selva retorna para assistir à morte de Boonmee. Uma noite, o espírito de sua falecida esposa aparece à mesa de jantar, acompanhada de seu filho, transformado na criatura peluda que vemos no pôster). É que os espíritos da floresta sentiram a presença da morte naquela casa.

Em um momento particularmente tocante, Huay, a esposa morta de Boonmee, cuida de seu marido enfermo. Mais tarde, somos levados a uma caverna que separa a vida e a morte, passado e futuro. O filme está sempre escapulindo pelas frestas, escorrendo pelas fronteiras. Homens se transformam em macacos, vivos se transformam em mortos, não há demarcações bem definidas. 

Ideia que é literalizada em uma vinheta hilária e embasbacante, no qual uma princesa, invejosa de seu próprio reflexo na água, decide copular com um bagre para se tornar mais bela. É uma cena diferente de tudo que você já viu, não só pelo que acontece em tela, mas pelo modo como a cena é filmada: há um brilho azul intenso refletido pela cachoeira onde a princesa tem suas núpcias, ao mesmo tempo em que a densa folhagem torna a cena escura, quase sepulcral. 

Como esse efeito foi obtido? “Mágica” não seria uma resposta improvável, não fosse a presença do formidável Sayombhu Mukdeeprom atrás das câmeras. Ele, que viria a se tornar o diretor de fotografia de Luca Guadagnino, utiliza a luz natural e o estilo lânguido de Apichatpong para criar quadros de uma materialidade quase escultural. Assistir a qualquer Apichatpong em uma tela de computador é um desserviço que, muitas vezes, nós cinéfilos nos vemos obrigados a fazer.

Se é enigmático, é também hilário e altamente pessoal. Os maiores mistérios da existência são filtrados pelas referências particulares do mestre tailandês, desde seu amor pelos surrealistas até suas memórias dos velhos seriados populares, em que monstros do folclore de seu país apareciam com olhos vermelhos no escuro. Não à toa, um leitmotif que é retomado aqui.

Há os bichos, os vivos e os mortos: ou você luta para manter as fronteiras bem separadas, ou se mantém nas encruzilhadas. “Tio Boonmee” permanece no “entre”. Como resultado, o senso de descoberta que nos proporciona é coisa que não se vê todos os dias.