Em 2003, uma unidade do McDonald’s fechou as portas em Olinda, Pernambuco. O episódio alimentou uma lenda urbana segundo a qual a cidade teria sido a primeira do mundo a levar uma franquia da rede norte-americana à falência. Para o cineasta Douglas Henrique, porém, a história ganhava outra dimensão quando colocada ao lado de um acontecimento político ocorrido três anos antes: a eleição de Luciana Santos, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), à prefeitura do município.

Foi dessa aproximação que surgiu Os Arcos Dourados de Olinda, curta-metragem documental de 24 minutos que utiliza imagens de arquivo para relacionar a presença de uma das marcas mais reconhecidas do capitalismo global à história política brasileira no início dos anos 2000. A proposta, concebida em 2021, durante a pandemia, levou cinco anos para chegar ao público e agora coloca a produção pernambucana na disputa por uma indicação ao Oscar 2027, na categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem.

SÍMBOLO DO CAPITALISMO DE ENCONTRO AO COMUNISMO

A ideia surgiu quando Henrique procurava histórias de Pernambuco que pudessem render um filme fora das narrativas mais convencionais. A lembrança daquela anedota sobre o McDonald’s o levou a pesquisar o que acontecia em Olinda naquele período. Foi nesse processo que descobriu a trajetória política de Luciana Santos, eleita em 2000 e reconhecida como a primeira prefeita comunista do Brasil após a redemocratização.

“De um lado, o McDonald’s como símbolo máximo do capitalismo norte-americano; do outro, uma prefeita comunista”, explica o diretor ao recordar o encontro entre os dois acontecimentos. A oposição lhe pareceu um caminho para construir uma narrativa que partisse de uma história local, mas encontrasse relações com disputas ideológicas mais amplas. A lenda, afinal, não precisava ser comprovada como um feito econômico para funcionar como ponto de partida: seu valor estava também no imaginário que havia criado em torno da cidade.

Os Arcos Dourados de Olinda levou cinco anos para ser concluído, mas o período não foi dedicado apenas à pesquisa de documentos para ilustrar uma história já definida. Desde o início, Henrique pretendia construir a obra inteiramente a partir de imagens de arquivo. Encontrar esses materiais era, portanto, descobrir o que poderia ser contado e como essa narrativa tomaria forma.

“Sabia que, quando encontrasse os arquivos, teria um filme. A partir deles, escreveria a história”, afirma. O diretor imaginava relacionar os acontecimentos por meio de uma abordagem que flertasse com a ficção, aproximando-os de uma espécie de Guerra Fria. A proposta, contudo, ainda era uma hipótese: ele não sabia como o conjunto funcionaria na montagem nem se as imagens encontradas sustentariam a narração que tinha em mente.

PEDIDO AO PÚBLICO NAS REDES SOCIAIS

Nos primeiros três anos, o projeto avançou entre conversas com amigos, pesquisas pontuais e a reunião de documentos. Quando a investigação ganhou uma estrutura mais sistemática, a equipe retomou os materiais, buscou novas digitalizações e procurou pessoas que pudessem ajudar a reconstruir os acontecimentos. Com um orçamento de R$ 30 mil e uma equipe principal de menos de dez pessoas, a produção também precisou lidar com as limitações de uma proposta sem muitas referências diretas.

Em alguns momentos, Henrique cogitou adaptar o filme para uma forma mais convencional, que oferecesse maior segurança. A decisão de insistir na ideia inicial, no entanto, acabou determinando o caminho da realização. “Só faria sentido realizar o filme se apostássemos naquela proposta inicial”, conta.

A pesquisa em Olinda exigiu estratégias que ultrapassavam a consulta a jornais e documentos oficiais. Henrique conversou com moradores, guias turísticos e pessoas ligadas ao cinema e à música que conheciam a cidade. Essas trocas ajudaram a construir o imaginário em torno da história, mas ainda faltavam registros visuais capazes de aproximar o espectador do cotidiano da época.

O diretor procurava especialmente fotografias do restaurante e imagens de crianças no local, que também funcionava como espaço de lazer infantil nos anos 2000. Como esse tipo de registro nem sempre estava disponível nos arquivos públicos, a equipe fez uma convocatória nas redes sociais para que antigos clientes compartilhassem fotografias pessoais. A iniciativa trouxe imagens de frequentadores e ex-funcionários, ampliando o material reunido durante a investigação.

O trabalho também chegou ao arquivo do partido de Luciana Santos, que preservava documentos ainda não digitalizados. A equipe inventariou o material, selecionou os registros relevantes e realizou a digitalização, disponibilizando os arquivos digitais ao partido para facilitar futuras consultas. Nos arquivos públicos de Olinda e de Pernambuco, a pesquisa se concentrou em fotografias, recortes de jornais e registros que permitissem estabelecer datas e reconstruir acontecimentos nem sempre documentados com precisão.

economia, ideologia e vida cotidiana

A investigação não serviu apenas para confirmar informações históricas. Ela definiu os limites e as possibilidades da narrativa. Em vez de escrever um roteiro fechado e procurar imagens que o ilustrassem, Henrique precisou construir o filme a partir dos vestígios disponíveis, relacionando documentos que, de forma isolada, não necessariamente contariam a mesma história.

Essa reconstrução também levou o diretor a observar o que permanece na cidade mais de duas décadas depois dos acontecimentos retratados. Durante o Carnaval de 2026, Henrique recebeu fotografias de ruas de Olinda com lixo acumulado. As imagens lembravam uma cena do início do curta e chamaram sua atenção para a permanência de problemas urbanos que, em sua avaliação, continuam sem respostas suficientes.

“O filme fala sobre Olinda, o Brasil e a América Latina, principalmente sobre como, depois de 26 anos, algumas coisas continuam sem mudar”, diz. Para ele, a precariedade da infraestrutura e a falta de condições que melhorem a vida dos moradores fazem parte de uma história que não pode ser compreendida apenas pela sucessão de eleições e acontecimentos institucionais.

A ascensão da esquerda na política brasileira também integra esse panorama. A eleição de Luciana Santos em Olinda, assim como outras conquistas municipais e legislativas daquele período, compõe um cenário que se ampliaria nacionalmente com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002. Henrique relaciona esses movimentos à trajetória política da América Latina, marcada, segundo ele, por disputas internas e interferências externas que continuam afetando a região.

O curta, assim, parte de uma história sobre o fechamento de um restaurante para aproximar economia, ideologia e vida cotidiana. A dimensão política não aparece separada da cidade: está nas escolhas que moldaram aquele momento histórico e nas questões que, para o diretor, continuam presentes no Brasil contemporâneo.

DE OLINDA PARA O MUNDO

A circulação internacional tem mostrado que a narrativa não depende exclusivamente do conhecimento prévio do público sobre Olinda. Segundo Henrique, o filme já foi selecionado para festivais em 17 países, com uma recepção particularmente rápida na América Latina. A escolha de começar pelo contexto mundial antes de chegar à cidade foi pensada para facilitar essa aproximação.

O humor também ajuda a estabelecer essa conexão. A ideia de que uma cidade pernambucana teria derrotado uma das maiores redes de fast-food do mundo carrega o exagero próprio de uma anedota popular, mas oferece ao filme uma entrada acessível para discutir questões históricas e políticas. 

A trajetória ganhou outra dimensão com a vitória no 31º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que tornou o curta elegível para disputar uma indicação ao Oscar 2027. A campanha acontece sem a estrutura financeira normalmente associada à premiação, mas a repercussão acumulada em festivais, sessões e redes sociais tem ajudado a ampliar o público.

Para Henrique, a possibilidade de chegar à maior premiação do cinema mundial tem um significado que ultrapassa o reconhecimento individual. Os Arcos Dourados de Olinda surgiu com poucos recursos, no contexto de sua conclusão de curso, e alcançou uma dimensão que o diretor não imaginava no início. A trajetória também pode servir de incentivo a outros jovens realizadores que tentam levar adiante projetos sem contar com grandes estruturas de produção.

A equipe trabalha para ampliar a circulação nacional e internacional, com novas sessões, participações em festivais e negociações para a chegada do curta ao streaming e à televisão por assinatura. Nos Estados Unidos, Douglas e equipe também busca apoio institucional para viabilizar ações de campanha. A elegibilidade abre a possibilidade de disputar uma vaga na shortlist da Academia, mas não garante que o filme esteja entre os semifinalistas ou que receba uma indicação.

O que começou como uma pesquisa sobre uma lenda urbana acabou se transformando em um filme cuja realização dependeu da descoberta de documentos, da colaboração de moradores e da disposição de sustentar uma proposta formal pouco convencional. Agora, a campanha amplia o alcance dessa história, embora seu próximo passo ainda dependa dos recursos e das parcerias que a equipe conseguir reunir. Como resume Douglas Henrique, o trabalho segue em construção: “Estamos ainda entendendo até onde vamos conseguir chegar”.