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O cinema nacional é mesmo uma experiência sensorial. Não vou me apegar às problemáticas que circundam nossa produção, distribuição e afins. Porém, verdade seja dita, é um território vasto, rico e muito além das comédias escrachadas da Globo Filmes que arrastou multidões às salas de cinema e generalizou toda uma estrutura que resiste há décadas. Papo para outro momento.

Dito isso, celebramos neste texto os 40 anos do lançamento de “A Marvada Carne”, filme importantíssimo em cenário nacional no que tange pobreza e miséria. Dirigido por André Klotzel, o longa de pouco mais de 70 minutos explora o lado caipira de ser envolvido em questões sociais.

Quim (Adilson Barros) é um pobre miserável que vive em um casebre com suas galinhas, seu cabrito e seu vira-lata. Com voz em off, ele narra o dia a dia de um homem solitário, vivendo na mata e comendo apenas arroz e feijão. Cansado dessa rotina, e com um sonho de comer carne de boi, ele parte em busca do desejo e de casar com uma mulher que cuide dele. Já Carula (Fernanda Torres) é uma jovem de 17 anos que sonha em casar e coloca a estátua de Santo Antônio nos maiores apuros para que seu desejo seja atendido. E não é que acontece e eles se encontram? Não sem antes passar pelas provações dos pais da moça, o esquecido Nhô Totó (Dionísio Azevedo) e sua incisiva e dedicada mãe/esposa Nhá Policena (Geny Prado), sob a falsa (mentirinha boba!) promessa de um grande banquete de carne de boi na festa do casamento.

Há muitas questões implícitas nessa celebrada comédia de Klotzel, vencedora de 11 Kikitos no Festival de Gramado em 1985, entre eles, o prêmio de melhor atriz para La Torres.

O êxodo rural é uma delas, que categoriza os sujeitos que migram da área rural para a área urbana em busca de melhores condições de vida. Entretanto, até Quim chegar à grande São Paulo e ser vítima de malandragem urbana, além de ser testemunha da miséria da mesma, acompanhamos toda a rotina de uma comunidade pobre que não tem nada além deles mesmos e se sustentam com o que plantam e cultivam. Aonde a luz elétrica não chega e a tecnologia não é nada senão o trabalho manual, como fica claro na cena em que todos eles, juntos, constroem uma casa de barro e ao final, fazem uma comemoração para celebrar o momento.

Claramente inspirado em Mazzaropi, porém com personalidade própria, “A Marvada Carne” trata dessas pessoas invisibilizadas, simples, de pés no chão. Um cinema cru, que usa de humor para apontar as feridas, que tomou conta no audiovisual brasileiro a partir do Cinema Novo. Até mesmo na televisão em novelas da Globo como “Meu Pedacinho de Chão” (1971), “Bicho do Mato” (1972), “Roque Santeiro” (1985), dentre outras, traziam esse olhar para com o sertanejo, o caipira, o interiorano que busca por oportunidades de vida sem ferir sua dignidade.

Importante destacar que Klotzel abusa do nonsense em certos momentos para especificar os famosos causos tão comuns nos interiores Brasil afora. Como no pitoresco encontro de Quim com o Curupira, o Santo Antônio dando sinais com cada cena com uma fisionomia diferente e o encontro de Quim com o diabo, ou melhor, a mulher diaba, em uma participação fantástica de Regina Casé.

Vamos parar para pensar: o cara tinha um sonho de comer carne de boi. Se hoje é algo tão trivial, naquela época – o filme se passa em meados dos anos 1970 – tudo era muito mais raro de se obter quando se vivia na linha da miséria. “A Marvada Carne” não é sobre a carne sexual, o desejo em si, mas sobre a carne, o capitalismo, o poder que coloca pessoas como Quim e Carula abaixo da linha da pobreza e que, na busca de um futuro melhor, sucumbem à loucura urbana nessa “vitória” em conseguir comer a tão sonhada carne e viver na insalubridade das comunidades/favelas que sustentam a verdadeira marvada carne. E você sabe muito bem do que estou falando, não é mesmo?

“A Marvada Carne” encontra-se na 83° na lista dos 100 Melhores Filmes do Cinema Brasileiro eleitos pela Abraccine.