O Brasil guarda muitas lacunas históricas não esclarecidas. Entre arquivos, omissões e versões oficiais, a manipulação das informações se torna uma ferramenta poderosa de controle dos fatos. Investigar o passado também é uma forma de contestar a própria memória nacional. Nesse espectro que A Conspiração Condor, de André Sturm, surge, recortando um episódio controverso e transformando-o em um suspense político. Com escolhas estéticas interessantes e uma temática forte, o filme não atinge seu potencial completo e escolhe o caminho mais fácil de mastigar tudo para o público.
Situado no período da ditadura militar, a obra acompanha a trajetória da jornalista Silvana na busca pela verdade nas mortes suspeitas de grandes nomes políticos da época, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda. De imediato, A Conspiração Condor assume a estrutura clássica de um thriller investigativo, focando nas apurações e revelações que ocorrem ao decorrer da trama. A aspiração do diretor é equilibrar a seriedade histórica com uma linguagem cinematográfica tensa.
Para comunicar essa liberdade técnica, a direção se permite a trazer recursos estilísticos mais fora do convencional: o uso do ângulo holandês para causar desorientação, personagens olhando diretamente para a tela para convidar o público a se sentir intimidado. André busca construir a tensão e o suspense através dessa ideia de subverter uma direção padronizada. Em uma cena de discussão, a câmera gira em torno das personagens, desnorteando a percepção. Bem no início, há uma cena em primeira pessoa focando em uma matéria sendo levada ao censor, dando foco na sua importância.
Outra ambição de André é realizar uma espécie de versão nacional do clássico Todos os Homens do Presidente. Ambos os filmes flertam semelhanças na forma como retratam o jornalismo investigativo envolvendo questões políticas e estruturas de poder. Além disso, ele também relaciona a narrativa com o filme Sob o Domínio do Mal, em como trabalha conspirações e manipulação. Essas referências reforçam mais a ideia de brincar com a ficção e com o cinema de gênero.
Entretanto, os saltos temporais do filme quebram a urgência da trama. A falta de consequências imediatas tira o peso da angústia. No ato final, o impacto é minimizado justamente por isso. A tensão não convence, mesmo que o desfecho ratifique a periculosidade da situação. Por outro lado, a construção de época é competente. A fotografia com tons marrons e amarelados aludem ao passado, num aspecto envelhecido. O figurino e a direção de arte reproduzem o estilo da época. A trilha sonora ressalta a tensão constante e o clima de desconfiança, mesmo que não tenha um pingo de sutileza em demonstrar isso.
Peça central da história, a jornalista Silvana, interpretada por Mel Lisboa, é o fio condutor da moralidade. A postura sólida e questionadora da atriz torna a personagem mais interessante do que o próprio roteiro propõe. A profundidade, os conflitos pessoais e os dilemas profissionais dela estão presentes, mas não há uma exploração mais efetiva. A personagem parece um veículo de informações para apresentar ao espectador. Todavia, a atuação da atriz dá nuances contidas para sua personagem, tentando engrandecer mais o material que foi lhe dado.
Dentro do núcleo da protagonista, os coadjuvantes também passam longe de convencer. O jornalista Juan de Dan Stulbach amplia o escopo da investigação, mas não tem tanto destaque enquanto o censor Floriano de Nilton Bicudo ocupa uma posição ambígua que é desperdiçada. Por fim, a jornalista Marcela de Maria Manoella só serve para fomentar uma rivalidade feminina no ambiente de trabalho. Esses três componentes armazenam enormes possibilidades, mas que só servem para fazer as coisas avançarem no longa do que contribuírem para o desenvolvimento dele.
Dissecando mais essa problemática, a superficialidade e a insistência do roteiro em ser muito explicativo limitam a sua ambição. A própria operação Condor carece de complexidade e aprofundamento. A dimensão internacional dela é resumida a uma cena de reunião. Apesar de exibir elementos sobre a censura dentro de uma redação de jornal, repressão e perseguição política, o filme não consegue transmitir o sentimento de medo daquele período, somente o contexto.
Os esclarecimentos excessivos tiram o espaço para a dúvida. Na necessidade de se explicar toda hora, o longa fica redundante. Uma cena que exemplifica isso é quando existe uma versão brasileira do experimento Milgram. Mesmo que traga uma importante reflexão sobre como pessoas comuns podem sofrer influência através de figuras poderosas e realizar atos de desumanidade, a cena é totalmente esmiuçada para o público. A mensagem é jogada na cara ao invés de ser absorvida.
Olhando por uma perspectiva leiga, A Conspiração Condor cumpre seu objetivo de chamar a atenção para a relevância e o caráter histórico do tema. A direção consegue criar uma tensão operante com movimentos de câmera diferentes e uma boa construção de época, mas o exagero didático e abordagens rasas reduz a força dramática e a natureza complexa da narrativa. No âmbito jornalístico, o longa requer mais densidade enquanto no entretenimento ele se encontra melhor.















