“Há magia no mundo, há magia em você”, diz uma personagem no minutos iniciais “O Bosque Selvagem”, novo filme de Travis Knight que teve sua estreia mundial no Festival de Londres desse ano. Vendo o longa, é fácil acreditar nessa fala: a aventura juvenil é a mais longa animação stop-motion da história e é uma carta de amor ao método, expandindo os limites dele para retratar uma fábula épica e sombria.
A trama se centra em Prue (Peyton Elizabeth Lee), uma pré-adolescente que tem seu irmão mais novo sequestrado e que, na busca por trazê-lo de volta para casa, acaba entrando em uma terra mágica junto com seu colega de classe, Curtis (Jacob Tremblay). Lá, os dois se veem envolvidos em um grande conflito entre os seres do lugar, orquestrado por uma misteriosa líder militar, Alexandra (Carey Mulligan).
É revigorante perceber como o roteiro de Chris Butler (adaptando um livro de Colin Meloy e Carson Ellis) usa elementos conhecidos da fantasia (como um reino secreto e uma governante má) como base para contar uma história não-sanitizada que não teme tocar em assuntos tabu a partir da primeira cena nem colocar seus protagonistas diante de riscos reais. Nesse sentido, O Bosque Selvagem se alinha mais aos contos de fadas tradicionais (com leves acenos às produções do Studio Ghibli) do que às versões Disney.
Essa decisão narrativa permite que o longa esfumace um pouco o compasso moral de seus personagens, com eles raramente sendo de todo bons ou maus. A ambiguidade é sentida profundamente por Prue, que passa por duas mudanças durante os 130 minutos de projeção: a perda da inocência diante de um mundo em que adultos não necessariamente tem os melhores interesses das crianças em mente; e a descoberta da magia e da possibilidade de lutar pelo que ela vê como justo.
Um outro filme teria extrema dificuldade em retratar essas transformações simultaneamente, mas Knight não só consegue fazer isso, como ainda consegue dar espaço para personagens secundários terem suas próprias descobertas e conjurar imagens de um impressionante reino encantado onde humanos e toda sorte de animais coexistem. O impecável design de produção de Nelson Lowry bebe de diversas fontes (dentre elas, a medievalidade Viking e as batalhas do século XIX) e entrega um visual novo e estimulante.
Quando entrevistado pelo Cine Set, Lowry falou do longo processo de construção dos sets e o nível de detalhe é visível em cada frame. Com a IA sendo cada vez mais usada nas artes, é animador saber que sequências espetaculares, como o voo da General ou a batalha final, foram criadas sem ela. A batalha, em especial, é digna de nota por conter uma tracking shot que poderia ter sido rodada pelo cineasta húngaro László Nemes e algumas das cenas mais violentas já vistas em uma animação mainstream.
É acachapante comparar esse filme com o outro longa do diretor lançado esse ano: o insípido “Mestres do Universo”. Enquanto o live-action centrado em He-Man apostava em uma trama inofensiva movida pelo poder da nostalgia, “O Bosque Selvagem” constantemente toma caminhos inesperados, conseguindo entregar uma história familiar o suficiente para o público mais novo, mas cheia de ricos detalhes para o mais velho. Esse feito – resultado de 15 anos de produção – é pura magia.














