A Odisseia está na boca do povo. No hype da produção, Tróia (2004) retorna aos holofotes como centro de discussão e comparação. Entretanto, além das obras serem adaptadas da literatura de Homero, elas têm um nome em comum nos bastidores: Christopher Nolan. O britânico quase dirigiu o longa de 2004 antes de Wolfgang Petersen assumir o cargo. Adaptada livremente do poema de Ilíada, a obra emplaca com sua grandiosidade e a presença marcante de Aquiles de Brad Pitt, mesmo trazendo fragilidades dramáticas.

Dada toda a escala apoteótica, Tróia em muitos momentos remete a trilogia O Senhor dos Anéis, com exércitos gigantescos parecendo um formigueiro se movimentando. Petersen, especialista em filmes que lidam com histórias que ostentam um escopo maior como Poseidon e Mar em Fúria, não economiza na magnitude do conflito, priorizando a força de ambos os lados e o que está em jogo na situação. A ação tem presença, os combates são bem coreografados, incluindo um que utiliza a câmera subjetiva para mostrar a pequenez do personagem no duelo.

A exuberância dos cenários e figurinos saltam os olhos, em uma construção estética viva, valorizando a cidade de Tróia como um símbolo de desejo. A fotografia calorosa combina com as paisagens áridas e também ajuda a construir a dualidade dos dois exércitos, em que um detém o objeto de poder e o outro o anseio pela conquista. A guerra aparece com um estopim estúpido, porém usado como um pretexto para mascarar segundas intenções de conquistas políticas. Esse orgulho é bem desenvolvido e conversa diretamente com a natureza destrutiva da guerra. O Agamenon de Brian Cox serve como a representação física antagônica disso.

As liberdades criativas propostas pelo roteiro seguem uma linha mais sóbria, eliminando elementos importantes do texto base. Uma dessas escolhas mais notáveis é a omissão da presença dos Deuses na narrativa, que confere uma abordagem mais realista. A mitologia dá lugar a uma condução mais contida. Eles são apenas referidos em citações dos personagens, sem representações fantasiosas. Apesar disso, existem anacronismos visuais para trazer um aspecto mais único ao longa, visando uma identidade tanto na escrita como na estética.

A curta duração da guerra também foi outra mudança. Isso deixa Troia com uma crescente tensão e urgência do conflito. Cada acontecimento aumenta a escalada da guerra, construindo uma expectativa para o que vem a seguir. Mesmo que soe como uma forma errada de resumir uma batalha como essa, narrativamente ela funciona dentro do contexto e da simplicidade que o filme quer seguir.

A rivalidade de Aquiles e Heitor, interpretados por Brad Pitt e Eric Bana respectivamente, ressalta a pressão e a necessidade do homem em lutar conflitos que não são seus. O peso de assumir a responsabilidade de um príncipe é sentida na figura de Heitor, tendo que defender sua cidade e seu irmão Páris enquanto Aquiles é mais individualista, que aos poucos vai se entregando à natureza selvagem da guerra. Pitt consegue transmitir com precisão as nuances sentimentais de seu personagem assim como uma imponência física. Aos poucos, aquela imagem impenetrável dá lugar a um homem quebrado, sentimental e que constrói uma humanidade ao longo da história através das suas perdas e relações.

Utilizando uma figura de linguagem bastante apropriada para a ocasião, o “Calcanhar de Aquiles” da produção se encontra nas tentativas frustradas de criar um drama verdadeiro. Muitos dos diálogos carregam uma artificialidade, com frases de efeito expositivas. Pior que isso são as relações amorosas do filme, que são pifiamente mal desenvolvidas. O romance Paris e Helena é o que mais exemplifica isso, os atores não trazem uma gota de intensidade e desejo. A química dos dois é mecânica, com toques e sorrisos vazios. Além disso, a personagem Helena é escanteada dolorosamente pelo roteiro, reduzida a um mero objeto de desejo.

Tendo a liberdade de contar a história num prisma mais artístico, Tróia se beneficia por ser uma grande diversão. Por mais que cambaleia no tratamento de alguns personagens e em um drama pouco convincente, a releitura repercute o alto custo da guerra, explorando as consequências psicológicas e a consolidação de mártires. Tudo isso condensado em uma ação magnânima que emula o que os grandes épicos do cinema proporcionam.