Jessie Buckley protagoniza a releitura de Maggie Gyllenhaal do universo de Mary Shelley, transformando a Noiva de Frankenstein em um símbolo de resistência feminina.

A história de Frankenstein foi publicada anonimamente por Mary Shelley em 1818, quando a autora tinha apenas 20 anos. Durante anos, muitos acreditaram que o romance fosse de seu marido, Percy Shelley, já que parecia improvável, para a mentalidade da época, que uma mulher tivesse escrito uma obra tão inquietante. O contexto de invisibilização feminina que cerca o nascimento do livro ecoa diretamente em A Noiva!, novo filme dirigido por Maggie Gyllenhaal, que parte justamente dessa ideia de uma mulher apagada da própria história.

No longa, ambientado em Chicago na década de 1930, acompanhamos a origem da Noiva, interpretada por Jessie Buckley. Assassinada e depois trazida de volta à vida, ela passa a habitar um mundo que parece constantemente disposto a controlá-la, julgá-la ou destruí-la. A criatura nasce, portanto, não apenas como um experimento científico, mas como uma metáfora bastante direta sobre mulheres que são violentadas, silenciadas ou simplesmente descartadas pelo mundo ao seu redor.

Jessie Buckley conduz o filme com uma personagem inquieta, expansiva e cheia de energia. Sua Noiva dança, fala muito, desafia convenções e parece existir em um ritmo próprio. Ao mesmo tempo, essa liberdade encontra resistência constante em um ambiente profundamente hostil. A cada tentativa de afirmação, o mundo parece responder com algum tipo de violência ou tentativa de dominação. Há algo de simbólico nessa trajetória de uma mulher que literalmente foi morta e retorna para existir novamente, como se o filme dialogasse com uma realidade em que o feminicídio se torna uma sombra cada vez mais presente.

Christian Bale interpreta o monstro criado por Frankenstein como uma figura melancólica e introspectiva. Diferente da intensidade da Noiva, seu personagem é mais contido, alguém que parece desejar apenas um romance idealizado, quase ingênuo. Ele gosta de cinema, de arte, de se vestir bem, e passa grande parte do tempo imaginando um amor perfeito. O encontro entre essas duas figuras cria um contraste curioso: de um lado, uma mulher que quer viver intensamente; do outro, um homem que sonha com um amor romântico quase impossível.

Visualmente, o filme também chama atenção. A direção de Maggie Gyllenhaal aposta em um universo estilizado, com cenários e composições que lembram o tipo de imaginação visual presente em “Pobres Criaturas” (2018). Em alguns momentos, a sensação é de que os dois filmes poderiam existir no mesmo universo, compartilhando essa mistura de fantasia, humor estranho e crítica social. A Chicago retratada aqui parece ao mesmo tempo histórica e fantasiosa, reforçando o caráter quase de fábula da narrativa.

Ao mesmo tempo, é justamente nessa ambição que surgem alguns dos problemas do longa. A Noiva! parece reunir muitas ideias diferentes: romance, investigação, musical, comentários sociais e até uma trama de rebelião que remete ao imaginário de casais fora da lei, como um Bonnie e Clyde gótico. Em determinados momentos, o filme parece tentar abraçar tudo ao mesmo tempo, o que acaba deixando a narrativa um pouco truncada.

Alguns personagens acabam ficando em segundo plano nesse processo. A participação de Penélope Cruz, por exemplo, é essencialmente funcional dentro da trama, existindo mais como um elemento narrativo do que como uma figura realmente desenvolvida. Há momentos em que parece que Maggie Gyllenhaal tem tantas ideias interessantes que o filme não consegue organizar todas com a mesma clareza.

Ainda assim, mesmo com essas irregularidades, A Noiva! tem uma força temática difícil de ignorar. Ao revisitar o universo criado por Mary Shelley, Maggie Gyllenhaal transforma a Noiva em algo próximo de uma figura simbólica, quase uma Joana d’Arc moderna, uma mulher julgada e violentada por simplesmente existir fora das expectativas impostas a ela.

Em um momento histórico em que discussões sobre violência contra mulheres e feminicídio se tornam cada vez mais urgentes, o filme encontra um ponto de ressonância bastante claro com o presente. Ao recuperar essa criatura esquecida do imaginário de Frankenstein, Gyllenhaal a reposiciona como um símbolo de resistência.

Não por acaso, A Noiva! surge como um filme que dialoga diretamente com o Dia Internacional da Mulher. Para quem procura uma obra que transforme um clássico do horror em uma reflexão contemporânea sobre autonomia, violência e sobrevivência feminina, o longa de Maggie Gyllenhaal encontra um espaço bastante particular dentro dessa tradição.