“Todas as escolas fedem”, diz uma investigadora da polícia a certa altura da minissérie britânica Adolescência, da Netflix. Um cheiro de angústia, tensão e masturbação produzidos pelos seres humanos passando por essa problemática fase da vida. Imagine como deve ser passar por ela hoje em dia, em um mundo onde as redes sociais e a internet potencializaram comportamentos que sempre existiram, mas que hoje são conhecidos por nomes próprios, como bullying, incels e misoginia.
A minissérie é um mergulho sombrio e dramático nesse mundo e suas questões, e atinge o espectador como um soco na mente e, em alguns momentos, no coração. Ao longo de seus quatro episódios, acompanhamos a vida de uma família sendo sacudida e transformada quando o filho adolescente de 13 anos, Jamie, é preso pela polícia, suspeito de um crime terrível. Para preservar as revelações da história para o espectador, este texto não terá spoilers. Mas é um crime bárbaro, assustador em sua banalidade, e completamente plausível de se observar no mundo de hoje. A história se passa na Inglaterra, mas poderia ser em qualquer país, incluindo o Brasil.
Em primeiro lugar, Adolescência é um incrível feito técnico. Cada um dos episódios, que duram de 50 minutos a uma hora, é filmado em plano-sequência, sem cortes, pelo diretor Philip Baratini e sua equipe de filmagem. Atualmente, esse tipo de invencionice acaba parecendo, muitas vezes, um exibicionismo de produções que aplicam esse formato sem muito discernimento ou noção de como ele pode contribuir para a história. Aqui, não: o fato de a situação se desenvolver sem cortes adiciona à tensão e ao clima opressivo da minissérie.
De certa forma, os planos-sequência até tornam tudo mais difícil de assistir – é uma ótima atração, mas para quem só procura um entretenimento na Netflix, Adolescência pode parecer muito pesada em diversos momentos, não por mostrar cenas violentas, o que quase não acontece, mas pelo tom dramático e pelos temas trabalhados dentro da narrativa, à medida que ela se desenvolve.
É de se imaginar o exercício de loucura que devem ter sido as filmagens, sobretudo no tocante ao trabalho dos atores, mas a façanha técnica se estende às atuações. Os desempenhos na série são uniformemente poderosos, com destaque para Stephen Graham como o patriarca da família Miller; Ashley Walters como o investigador de polícia; Erin Doherty como uma psicóloga; e a revelação Owen Cooper como Jamie. O garoto tem uma atuação muito forte e inteligente no terceiro episódio, que é basicamente uma longa conversa entre ele e a psicóloga; e Graham, além de atuar, é um dos criadores e produtores da minissérie. Todos desaparecem dentro dos personagens e ajudam o espectador a sentir de forma intensa o drama da história e as repercussões do crime.
Apesar de os britânicos terem tradição em seriados policiais e investigativos na TV, o foco em Adolescência é menos no mistério, de “quem fez o quê”, e mais no drama, na verdadeira história de terror em que as vidas dos personagens se transformam, face a um ato tão terrível. Até certo ponto, a série se vale desse formato mais familiar para discutir temas como masculinidade tóxica – como esta se manifesta nas escolas, e as pressões modernas que contribuem para que ela floresça – além dos perigos das redes sociais para adolescentes. Não há nenhuma “dark web” na história, o que vemos são jovens tendo suas vidas e mentes destruídas pelos velhos Facebook e Instagram mesmo.
Mas, para além da investigação ou do aspecto policial, Adolescência é encenada mesmo como uma tragédia. E é um testamento da força da história o fato de que ela esteja provocando tanta discussão, mesmo sem apresentar uma história supostamente “atrativa” para o público ou atores famosos – só Graham é o nome mais conhecido do elenco, e mesmo ele não é assim tão famoso. No momento em que esta crítica é publicada, a minissérie está em primeiro lugar da Netflix em vários países, inclusive no Brasil, e provocou discussão até no parlamento britânico, com o primeiro-ministro defendendo que ela seja exibida nas escolas nacionais.
E é a tragédia que fica: a do espectador adulto ao relembrar certos aspectos da sua própria adolescência, e a dos pais e de toda a comunidade dentro da história ao serem confrontados com um evento trágico. São esses os momentos que mais ficam na memória após a conclusão do último episódio, pequenas cenas em que os personagens se abrem para a câmera, e para nós, o público, que nos permitem ver a dor que motivou seus atos ou o sofrimento que decorreu deles. Adolescência não é realmente uma série fácil de assistir, mas não é para ser, e leva seu tema a sério justamente para chacoalhar o seu público, e espera-se, assim, provocar alguma mudança. Essa não deixa de ser, afinal, uma das funções da arte.















