Tem certos encontros que fazem a gente repensar o que fez da vida até aquele momento, às vezes por confirmarem o caminho que escolhemos e, em certos pontos, por nos mostrarem no que podemos nos aperfeiçoar. Independente do encontro que possa ter mudado a sua vida, All of Sudden, de Ryusuke Hamaguchi se encaixa nessas duas perspectivas e carrega a sensibilidade muito característica do diretor japonês, responsável por Drive My Car.

Por mais de três horas acompanhamos Marie-Lou (Virginie Efira), uma profissional da saúde que lidera um centro de cuidados especiais para idosos. Ela é muito dedicada ao que faz e parece querer sempre o melhor tanto para seus pacientes quanto para seus colegas de trabalho e é a partir desse ponto que Hamaguchi constroi os conflitos, as alianças e questões que permeiam a narrativa. 

É curioso pensar que a maior parte dos questionamentos e proposições levantados na trama só se tornam possíveis devido a influência que o capitalismo impõe sobre as nossas vidas. É por conta dele que a protagonista entra em conflito com seus liderados; nesse aspecto, quero destacar uma perspectiva ainda pouco refletida na sociedade que diz respeito a como a rotina de treinamentos intensos em empresas privadas é uma saída do capitalismo para contratar menos, pagar salários baixos e ser contraprodutivo de forma geral. Me chama atenção como o roteiro utiliza essa questão tão cotidiana como um dos pontos de discussão que acompanham toda a trama. 

A presença do sistema capitalismo dita ainda como a protagonista é acometida por um burnout que a leva a encontrar Mari Morisaki (Tao Okamoto), imergindo uma série de questionamentos e angústias que não existiriam se não estivéssemos presos nesse ecossistema sócio-financeiro. 

Em contraponto ao capitalismo selvagem, no entanto, há uma discussão ensurdecedora sobre a humanização. All of Sudden escolhe vários caminhos para implementá-la: ora mostrando a busca da protagonista para dar condições de convivência melhor entre trabalhadores e pacientes, ora a conceituando na teia pedagógica das conversas entre Marie-Lou e Mari, mas principalmente ao pôr como a grande luta da dupla central a humanização do sistema manicomial.

Nesse sentido, o roteiro trabalha duas temáticas especiais em seu subtexto: a finitude e o envelhecimento. Por um lado, exemplificando como a velhice chega para todos nós, mas nem todos estamos nos preparando para quando alcançarmos esse momento da nossa jornada. Por isso, quando Mari traz a alteridade para dentro do espaço mais significativo da trama por meio do toque como saída ao caos, é tão significativo como ela apresenta a necessidade de sentir o outro e ao mesmo tempo estar com os pés diretamente ligados à terra. Embora ela diga que a ação é importante para aliviar a mente e, consequentemente, a dor, torna-se algo essencialmente humano: compreender seu semelhante e conectar-se aquela de onde viemos e para onde retornaremos.  

É difícil nos definir diante de um sistema conhecido e brutal, mas Soudain nos mostra como em meio a tudo isso este mundo ainda é o lugar para viver. Nesse sentido, o encontro de almas entre Marie-Lou e Mari é o que determina essa importância, considerando o quanto uma complementa e outra e faz enxergar em si e em sua jornada os elementos que o capitalismo distanciou. Hamaguchi prova que é possível falar de humanidade sem ser piegas e tangenciando aspectos corriqueiros, mas que nos tornam essencialmente humanos e é isso que faz All of Sudden ser um filme tocante.