“Apocalipse nos Trópicos” tem tudo aquilo que caracteriza o cinema de Petra Costa: o registro da inquietação latente da diretora com algum aspecto da sociedade brasileira misturado às próprias sensações do processo de descoberta. Petra volta a ambientar a narrativa em Brasília, dessa vez, cobrindo os últimos oito anos do cenário político nacional a fim de compreender como a religião influenciou as eleições presidenciáveis nesse entremeio.
Falar sobre a política no Brasil da última década tornou-se uma pauta protocolar no cinema nacional. A própria Petra já o fizera em “Democracia em Vertigem”. Dessa vez, no entanto, ela adiciona a religião e procura fazer o mergulho em como este elemento tem um papel central nos plots que montam a história nacional. Para isso, “Apocalipse nos Trópicos” acerta ao propor como seu personagem central Silas Malafaia e a influência do líder religioso ao longo dos anos no jogo político. Como personagem, ele enriquece a narrativa por expor, sem mascaramento, suas opiniões e oferecendo um vislumbre sobre os ideais que arquitetam o fundamentalismo religioso nacional.
Outras figuras curiosas do núcleo político-religioso brasileiro também tem suas visões de mundo apresentadas no documentário. Cito, como exemplo, Cabo Daciolo que tenta empurrar para a diretora a leitura do Novo Testamento, esquecendo que a Bíblia por completo conta com o Antigo e o Novo Testamento, um indicativo de como muitos líderes religiosos e políticos decidem ignorar trechos bíblicos que deporiam contra suas atitudes e apenas destacar o que lhes convém. Algo notado em outros depoimentos apresentados na narrativa, mas principalmente exposto no pano de fundo da busca da diretora por entender o cristianismo e como este encontrou tanto espaço nacional por meio do protestantismo.
“Apocalipse nos Trópicos” chega em um momento religiosamente interessante, no qual o número de católicos tem encolhido e a quantidade de evangélicos expandido, principalmente entre os jovens. Os questionamentos da diretora/roteirista, de certa forma, acabam expondo alguns motivos que têm levado a esse quadro, embora também reforcem o lugar-comum que quem não professa uma religião possui, como por exemplo, a aplicação da teologia da prosperidade.
Por outro lado, toda essa pesquisa feita no campo da Outridade revela como o poder religioso transformou-se em um poder colonial que se transfigura e confunde com a tentativa de uma teocracia. Nesse âmbito, me chama atenção a montagem do documentário e as cenas em que o cabresto religioso impõe sua soberania sobre o governo político; deixando evidente que tanto Bolsonaro quanto Lula são faces do mesmo peão, manipulado pelo mesmo jogador. Petra só evidencia como um soube aproveitar o espaço e as oportunidades melhor que o outro.
Falo primeiramente de montagem para exemplificar a sutileza e didatismo como o colonialismo é apresentado, porque Petra parece partir de duas fontes principais de imagens: aquilo que ela produziu no decorrer dos últimos oito anos e as redes sociais. O interessante é como ela toma essa última e realiza análise semiótica do que se desenvolve nas cenas. Assim ela escancara as dinâmicas de poder que prevaleceram nos processos eleitorais que levaram a extrema-direita ao poder. Entre a dominação ideológica, a subjugação cultural, a superioridade espiritual e a manutenção do sistema imperialista – voto de cabresto -, Petra Costa cumpre aquilo que propõe na titulação do seu documentário: relevar o que acontece politicamente nos trópicos brasilis.
Mais uma vez a diretora levanta questionamentos pessoais e parte em busca de respostas que não se fecham em si mesmas, mas amplificam a visão do complexo cenário no qual a política nacional estacionou. Penso que não é um fechamento da temática e que há muito a ser explorado sobre o alinhamento político-religioso brasileiro, talvez a pior parte é que essa história ainda esteja sendo construída e Petra só revela a ponta desse iceberg.














