Desde que ganhou o Oscar por “12 Anos de Escravidão”, o britânico Steve McQueen parece se interessar por um exercício curioso: adaptar seu estilo particular para cenários inusitados. Por estilo particular, é claro, estamos falando daquela placidez toda com takes impressionantemente longos. “As Viúvas”, por exemplo, era um thriller dos mais convencionais, mas filmado com os floreios esperados do seu diretor.

Em “Blitz”, McQueen leva sua câmera para a Inglaterra de 1940, sob constante bombardeio da força aérea nazista. Em meio a uma evacuação em massa das crianças londrinas, a operária Rita (Saoirse Ronan) se vê obrigada a mandar o filho para o interior. O menino (Elliot Heffernan) não gosta nada disso e decide voltar sozinho para casa em um arroubo de ousadia infantil.

O virtuosismo dos planos-sequências de McQueen são deixados de lado pela maior parte da projeção, salvo em alguns momentos chaves. De todo modo, as preocupações com questões de raça permanecem: George, filho de um homem negro, tem a pele marrom clara. A cosmopolita Londres é também polo multiétnico, graças aos ímpetos imperialistas dos britânicos. As tensões raciais, portanto, são constantes, mas McQueen opta por vias um tanto quanto caricaturais. Assim, em um abrigo antibombas, haverá um conflito entre um casal britânico apropriadamente detestável e uma família imigrante a ser apartado pelo policial nigeriano mais digno e heroico de todos os tempos – interpretado com o porte necessário por Benjamin Clementine. 

Já está claro que o que surge em “Blitz” como pouco característico da obra de McQueen é uma farta dose de sentimentalismo. Na verdade, “Blitz” chega a ter um quê de fabular nas desventuras de George pelos escombros londrinos. O resultado não é de todo coeso, como se o diretor não soubesse se decidir entre a crueza brutal e as reviravoltas melodramáticas.

O impacto emocional não vem e o longa se torna um tanto quanto indistinto. Passada a curiosidade da colisão de mundos tão díspares — o olhar clínico de McQueen e a aventura infantil, o horror da guerra e as articulações fáceis do roteiro —, a verdade é que não sobra muita coisa para sustentar o interesse.

O que há, no entanto, é uma curiosa trilha sonora dissonante de Hans Zimmer, que une os ruídos da fábrica de armamentos onde Rita trabalha à angústia de um Penderecki e sua famosa composição para Hiroshima. E há, é claro, o ótimo olho de McQueen para composições visuais. As cenas durante os blackouts noturnos são um destaque nesse sentido.

Mas esses lampejos de originalidade não são o suficiente para elevar um filme que parece condenado por tentar, sem sucesso, conciliar diferentes rumos.