Chegamos à metade da segunda temporada de “Casa do Dragão”. E aqui temos uma virada interessante sobre a forma como a narrativa vem sendo contada. Se antes passamos muito tempo em Porto Real, observando os Verdes, agora começamos a acompanhar melhor o movimento dos Pretos. A escolha continua se apoiando em espelhamentos e consequências de ações, mas nos evidenciam ainda mais o quão diferente são os dois lados da Dança dos Dragões.
Começo dizendo que a dinâmica em Pedra do Dragão, Harrenhal e Correrrio é mais parada que as tramas da corte Verde. Daemon segue preso na teia de devaneio de Alys Rivers, enquanto Rhaenyra tenta governar e enfrentar os conflitos de gênero, o que deixa a sensação da trama andar em círculos, no entanto o enfoque em outros personagens da facção nos possibilita ter uma concepção mais profunda de sua liderança, assim como pudemos ter de Aegon.
A Rainha de Pedra do Dragão parece perdida sem a presença de Rhaenys, mesmo assim tenta impor respeito ao seu pequeno conselho, que ao menos finge escutá-la. É incrível como o roteiro deixa nítido o apoio feminino que a personagem busca e como este é a principal base de aconselhamento e impulsionamento para governar. Ela tira das mulheres não apenas o incentivo e o apoio incondicional, mas também conselhos que atingem a parcela da população que os homens — tanto no conselho verde quanto no seu — não conseguem vislumbrar.
FOGO E SANGUE
Quero destacar duas conexões essenciais neste episódio: a lealdade das irmãs Velaryon-Targaryen e a perspectiva de Mysaria. Lá no Vale, Rhaena, ainda que infeliz por sua colocação na guerra, defende Rhaenyra da insatisfação da senhora Arryn e recebe, como vingança, a notícia do falecimento da avó, sem ter alguém que possa consolá-la. Enquanto isso, a irmã tem uma conversa indigesta com o avô em Derivamarca e uma troca de confidências de Jace – devo dizer que, para quem tem um noivado tão longo, senti falta de afeto entre eles. Baela participa da cena que faz jus a tudo que o episódio tentou salientar nas suas entrelinhas: a disputa de poder em meio ao luto. Corlys está ferido pela morte da esposa, assim como Baela e Rhaenyra, e, da mesma forma que elas, usa esse momento de dor para sensibilizar a neta a ser sua sucessora. Algo impensável para as demais casas de Westeros, mas não na corte da filha de Viserys.
A resposta de Baela é interessante porque nos aponta as influências que cercam a neta de Rhaenys. Como filha de seu pai, noiva de Jace e enteada de Rhaenyra, ela é fogo e sangue. Sua escolha é um dos indícios que temos nesse episódio do abismo sobre o poder entre Rhaenyra e Daemon. A montadora de dragão a cita, ao lado da mãe e da avó, como uma das suas referências, promete estar ao seu lado como Rhaenys e juramenta seu dragão — porque as espadas pertencem apenas aos homens — a ela. Esta é apenas uma prova de como Rhaenyra governa apoiada pela influência, diferente de todos os homens que disputam o trono com ela.
Abro um parêntesis para já falarmos sobre Daemon. Enquanto suas filhas e sua ex-amante são o esteio da esposa, o montador de Caraxes revela finamente seus planos em Harrenhal: tomar Porto Real para si. A grande questão é que, assim como Viserys e seus descendentes, Daemon não foi preparado para assumir o trono. A maior prova disso são os conselhos tortos que distribui em Harrenhal, o tédio em lidar com os nobres e a maneira obtusa como administra a audiência na madrugada. Ter uma espada não te faz merecedor da coroa, ainda que o mundinho machista afirme categoricamente, e ele e sua contraparte Aemond precisam experimentar isso.
Voltando a abordar as conexões femininas de Rhaenyra, Mysaria traz uma perspectiva geralmente ignorada por Martin em seus livros e por D&D em “Game of Thrones”: como o povo é afetado pela guerra e enxergará a morte do dragão como um mau presságio. Rhaenyra, entre todos os candidatos ao trono, parece se importar com essa classe de súditos. Mas eles estão cada vez mais consumidos pela narrativa contada pelos Verdes em Porto Real. É interessante que a cena de abertura do episódio faça um contraponto entre o povo barbarizado pela exibição da cabeça de um dragão, a ausência de comida saudável na capital e os verdes indiferentes a isso do alto das muralhas da fortaleza de Maegor. Aemond, Alicent e Cole seguem traçando o caminho que levará a aniquilação dos dragões.
ESPELHAMENTOS DA SÉRIE
Nesta crítica, enfim, me permitirei falar de Cole. O testemunho ocular dos acontecimentos em Pouso de Gralha afetaram a Mão do Rei, que parece mais confuso e perdido do que esteve após a morte do menino Jaeherys. Mais uma vez, ele comprova seu insucesso como conselheiro principal e sabe que não conseguirá dominar Aemond, principal responsável pela guerra estar no estágio atual. Fabien Frankel tem desenvolvido de forma espetacular o personagem, nos possibilitando enxergar suas nuances e ansiar pelo seu fim.
Por fim, Alicent tomou seu próprio veneno. Me pergunto se ela foi ingênua ou apenas tola. Admito, contudo, que a cena me causou incômodo porque novamente vemos uma mulher lutar e perder para um homem, a espada como maior elemento de governabilidade. As expressões faciais de Olivia Cooke foram precisas e transmitiram todo o desconforto que sua situação no conselho me despertou.
Aqui vale os espelhamentos que a série tem trabalhado: Alicent reuniu o conselho contra Rhaenyra por ser mulher, está sozinha no meio de homens que não pode confiar, precisa disputar o poder com os próprios filhos com quem é fria e distante e desconhece o que acontece em sua própria facção. Rhaenyra tem literalmente o oposto disso e um plano que guiará o restante da dança.
Este foi um episódio mais focado na compreensão da dinâmica dos Pretos, as consequências da batalha e o luto pela Rainha que Nunca Foi. Olhando em retrospectiva, gosto mais dele à medida que reflito sobre suas interações e as nuances que destacou dos personagens. Nos preparemos para o plano de Jace e as consequências do ímpeto vingativo e sanguinário de Aemond.














