Em certo ponto de “Eno”, o saudoso músico David Bowie diz não saber o que Brian Eno faz. Isso não o impediu de colaborar longamente com o artista, que, além de Bowie, também teve sua mão em discos do U2, Coldplay e Talking Heads… e uma porção de instalações e projetos audiovisuais. O desafio do cineasta Gary Hustwit é dar uma ideia de quem Eno é e o que ele faz no espaço de um longa-metragem.
A solução foi encontrar Eno em seu elemento. Se “Não Estou Lá” se tornou o retrato mais fidedigno de Bob Dylan por explorar seu amor por personagens e histórias, “Eno” consegue um feito similar abraçando duas das constantes mais notórias do trabalho do artista inglês: tecnologia e acaso.
Em essência, o longa escolhe, através de um algoritmo, trechos dentre as mais de 500 horas de material bruto e monta uma versão diferente de si mesmo cada vez que é exibido. O resultado é perfeitamente alinhado com a arte de seu protagonista, que explora arte generativa há décadas. No entanto, ele cria uma situação insólita para o crítico de cinema: como falar de um filme que nunca mais será visto?
Não que isso tire a pura criatividade e inspiração que Hustwit encontra neste formato. O cineasta, mais famoso pelo seu documentário “Helvetica” (sobre a fonte de mesmo nome), oferece aqui uma versão digital da estética dos sonhos. Em “Eno”, imagens entram e saem do frame, nunca se delongando ou se explicando demais, deixando para o espectador preencher as lacunas.
As lacunas, no entanto, são fascinantes – e os pensamentos de Eno são o que dão à produção a sua alma. Na versão conferida pelo Cine Set, ele se mostra um homem apaixonado pelo processo de criar, que não perde a chance de rir de si mesmo, e que enxerga beleza tanto em luzes geradas por computador quanto nas plantas do jardim de casa.
É testamento da uniformidade – e singularidade – de sua filosofia que, mesmo com um algoritmo embaralhando suas cenas, o filme nunca parece aleatório. “Eno” pode ser um retrato do artista que consagrou a frase “trate seu erro como uma intenção oculta”, mas é um acerto de mão cheia.











