Yoshii é um muambeiro ardiloso. Ele engana, intimida e seduz seus fornecedores desavisados — um expert naquilo que os empreendedores chamam de “táticas de negociação”. Depois, revende os produtos a preços astronômicos em sua loja virtual.
Alguns dos produtos são falsificados, claro, mas isso não é problema dele. Essa picaretagem é apenas o que ele faz nas horas vagas, depois do expediente como operário numa fábrica têxtil. Seu rosto vazio, salpicado por uma barba rala e adornado por dois olhos desinteressados, mal esconde sua determinação em se tornar um magnata.
É um rosto típico de Kiyoshi Kurosawa, esse cineasta-mor da alienação contemporânea. De fato, “Cloud” é bastante direto em suas ambições — menos um horror apocalíptico condensado à la “Chime”, e mais uma rota demarcada: simplesmente o que acontece se seguirmos a lógica do “todos contra todos” até seu limite.
Daí que o filme não consegue evitar um certo desequilíbrio. A primeira metade, toda mal-estar e sugestão, deixa uma impressão mais forte que a segunda, quando a ameaça que ronda o apático Yoshii irrompe de vez. O filme nunca é entediante, mas não se pode evitar pensar que se trata de um projeto menor na filmografia de Kurosawa.
É verdade que, em todo caso, Kurosawa é um diretor que não se limita a tematizar ou discursar sobre seus Grandes Temas: ele os filma, dramatiza, enfim, articula tudo em imagens e sons. Tudo isso com a tradicional elegância da sua câmera, seu design de som tenso, cheio de ruídos e silêncios cortantes.
Acontece que “Cloud” é direto demais em sua acidez. Depois de percorrer sua estrada para perdição, Yoshii, de dentro do carro onde faz a entrega de seus produtos, anuncia ter chegado ao inferno. Do lado de fora, um céu escarlate recobre o horizonte. Imagem apocalíptica tipicamente Kurosawana, mas que aqui surge sem o poder devastador de “Cure”, “Pulse” ou “Chime”.











