Mestre do terror japonês, Kiyoshi Kurosawa dispensa apresentações quando se trata de entregar suspenses psicológicos que são altamente aclamados. Exemplo disso é o famoso “Pulso” (2001), que fez o diretor receber diversas críticas positivas e se tornar um dos grandes expoentes do terror cult e contemporâneo, por retratar uma narrativa complexa e conceitual ligada a tecnologia, alienação e o sobrenatural. 

Posteriormente, mesmo atuando também com trabalhos em outras temáticas como o drama “Sonata de Tóquio” (2008), Kurosawa parece se consagrar realmente com thrillers e terrores psicológicos. Somente este ano, o asiático lançou dois projetos que foram bastantes elogiados: o longa “Nuvem” e o média-metragem “Chime”.

Protagonizado por Mutsuo Yoshioka que interpreta Takuji Matsuoka, um professor e chef de cozinha frustrado com sua posição social, “Chime” causa uma tensão espontânea e presente a todo instante com uma direção trabalhada de forma extremamente rigorosa. Kurosawa consegue extrair bem dos ambientes e espaços claustrofóbicos toda uma sinestesia causada pelos seus planos. Se Jenna Ortega não podia piscar enquanto interpretava Wandinha, por conta da personalidade macabra de sua personagem na série da Netflix, aqui quem não consegue piscar somos nós, os espectadores. O média te petrifica e mantém vidrado a cada momento das cenas, principalmente nos conflitos que acontecem de forma bem inesperada.

O sobrenatural é citado, mas nunca apresentado; está sempre em outro plano. Isso reforça e enriquece mais ainda o suspense, causando uma mistura de ansiedade, medo e um certo pânico gradativo. Mesmo em planos mais abertos, o diretor consegue se mostrar capaz de nos causar estranhamento; existe ali toda uma atmosfera ambígua: você não sabe onde está pisando até ele te mostrar no último momento o verdadeiro chão. 

Um dos pontos altos de “Chime”, com certeza, é um enquadramento usado numa cena de luta pouco antes do ato acontecer: existe ali uma raiva e uma intransigência do protagonista que te aflige. Tudo é muito bem conduzido de uma forma conceitual, tanto direção quanto fotografia. Esse momento slasher que o filme assume e expressa por mais que seja assustador e revele um ego do personagem, não te livra da tensão constante que já foi impregnada desde ali nos primeiros minutos.

Com uma direção de arte mais fria, é possível notar os tons azuis e pastéis em alguns cenários, reforçando mais ainda essa redoma que a película nos contorna. A indiferença que o pai possui diante de sua família, nos faz refletir qual a sua verdadeira personalidade e quem está consciente naquele corpo.

Contudo, por mais que “Chime” tenha um cuidado minucioso na montagem e direção, não podemos esquecer que ele possui apenas 44 minutos, o que frustra um pouco, pois o filme finaliza em momento morno. Acredito que o mesmo tinha um grande potencial para um desfecho mais climático, mesmo em um tempo mais limitado. Ainda assim, vale a pena assistir esse média-metragem que foge dos padrões de terror americanos que estamos acostumados e nos introduz a um ambiente totalmente enigmático e imprevisível.

Autor

  • Formado em administração, mas com paixão pelo audiovisual, música e literatura. Caça filmes coming-of-age, scifi e suspense. Apaixonado por animações, principalmente em stop motion. Busco me qualificar e buscar cada vez mais minha identidade artística, tentando sempre aprender mais sobre os mais variados campos da arte. Támbém com a missão de ser um bom tecladista/pianista quanto Sebastian foi em "La La Land"

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