Contar uma história sobre “trocas de corpos” já é um enredo bem batido. Dá para citar inúmeras produções que utilizam desse artifício, como por exemplo Sexta-Feira Muito Louca, Se eu Fosse Você e Garota Veneno. A questão principal é se Como Mágica, nova animação da Netflix, trouxe alguma abordagem inovadora ao plot. A resposta é não, porém consegue entreter com uma mensagem necessária e edificante sobre a importância da empatia.

Enraizada dentro do reino animal, a animação traz um conceito muito interessante: a hibridização dos animais com a natureza. Os animais tem características de folhas, pétalas, rochas e troncos de árvores. Fica clara a intenção ecológica que o roteiro quer transmitir em que ambos compartilham uma ligação única de harmonia e o cuidado com a natureza de uma forma geral. A representação do fogo funciona como o sofrimento e a destruição, do ódio e de opressão.

Nesse contexto, Como Mágica esbanja uma parte técnica cheia de vivacidade. Os planos aproximados evidenciam o excelente trabalho de textura, seja nos pelos e nas penas dos animais. Os cenários ostentam uma beleza voluptuosa, ainda mais na movimentação da água, garantindo uma fluidez agradável esteticamente. A riqueza de detalhes é notável, seja no visual das criaturas como nos mais diferentes formatos e cores de plantas. Esse cuidado condiz com a intenção dos realizadores de oferecer um sentimento de cumplicidade e beleza ao redor.

O maior mérito da direção de Nathan Greno é construir um universo único, essencialmente lúdico. Existe um frescor pulsante dentro da animação, imitando a energia de uma fábula infantil. A fantasia apresentada ajuda a imersão das crianças na história e um investimento emocional verdadeiro. Para completar, o design fofo das criaturas contribui para a sensação recreativa.

O conflito central reside entre duas espécies, os Pookoos e os Javans. Disputando acesso por comida, o filme aposta na dinâmica entre personagens opostos para consolidar uma linguagem identificável com o público. Os protagonistas Ollie e Ivy trazem uma boa química através das provocações sagazes e das reações divertidas entre eles. Porém, nessa relação surge um subtexto altruísta muito pertinente. Pequenas atitudes fazem a diferença e podem salvar outros e é isso um dos objetivos do filme.

Sob esse viés, o longa se opõe ao individualismo, que gera comportamentos e atitudes mesquinhas. O próprio vilão surge como uma metáfora disso, mesmo que suas motivações sejam bem rasas. Todavia, o pecado do filme é não se aprofundar tanto, passando uma superficialidade que diminui a força do longa.

Compreender alguém se colocando no lugar do outro representa a linha principal seguida pelo roteiro. Tem uma cena em que o personagem Ollie transformado em um Javan ensina Ivy a usar seu faro aguçado para detectar o que é cipó e o que é cobra. Há muitos momentos como esse no longa, que segue uma estrutura episódica. Isso cria um resultado bem previsível em muitas situações.

Apesar disso, para contornar um pouco essa questão, o roteiro insere umas reviravoltas inesperadas, que chacoalham positivamente a história. Um debate bem oportuno que o filme apresenta é mostrar como as aparências enganam e que muitas vezes o perigo está onde se menos espera.

Sucesso retumbante do serviço de streaming, Como Mágica apela para uma premissa familiar, construindo uma estética agradável para as crianças. Não agregando nada de inventivo ao gênero, é de fácil absorção e uma aventura que relembra o bom exemplo de ser digno com o próximo.