Mother Mary é exatamente o tipo de filme que só a A24 conseguiria lançar sem medo de parecer exagerado. E ele é exagerado. Melodramático, sufocante, pretensioso às vezes, mas também profundamente íntimo. É um filme sobre fama, ego artístico e identidade, mas acima de tudo sobre o que acontece quando alguém perde completamente o contato com a própria humanidade.
Anne Hathaway entrega uma performance gigantesca como Mary, uma popstar que parece existir o tempo inteiro entre o divino e o vazio. Uma atuação que mistura diva pop, fantasma e mártir religiosa. Tem algo de Lady Gaga, Madonna e até Natalie Portman em Cisne Negro. Ela já não é apenas famosa, ela virou uma imagem, um produto, uma entidade construída para ser adorada. E é justamente isso que adoece a personagem. Mother Mary entende perfeitamente a “doença do estrelato, aquele momento em que a persona pública consome tanto alguém que sobra muito pouco da pessoa real por baixo dos figurinos, das performances e dos símbolos.
E por isso Sam é tão importante. Michaela Coel interpreta Sam com uma dor silenciosa absurda. Ela é a única pessoa que ainda consegue enxergar Mary sem o espetáculo ao redor. A relação entre as duas move o filme inteiro e é impossível analisar Mother Mary sem entender que, no fundo, essa é uma história de amor. Um amor queer, reprimido, mal resolvido e transformado em arte porque nunca pôde existir livremente.
Existe ressentimento entre elas, claro. Mary construiu sua identidade artística usando dores, ideias e emoções que vieram de Sam. Há uma discussão muito forte sobre autoria emocional, sobre como artistas transformam pessoas reais em repertório criativo. Mas o filme nunca trata isso apenas como exploração. Existe também amor genuíno ali. Um amor tão profundo que continua assombrando as duas mesmo anos depois da separação.
E o filme transforma isso em símbolo o tempo inteiro.
O tecido vermelho é provavelmente a imagem mais importante de Mother Mary. Ele aparece quase como um espírito vivo, pulsando entre as duas personagens. Em muitos momentos parece representar a vulnerabilidade que Mary tentou apagar de si mesma para sobreviver à própria fama. Sam carrega esse “espírito” porque ela ainda preserva aquilo que Mary perdeu: humanidade, autenticidade, fragilidade emocional.
Um ponto primordial é que o filme entende vulnerabilidade como algo quase espiritual. Mary passa grande parte da narrativa tentando controlar a própria imagem, mantendo figurinos, performances e personas como armaduras. Mas quanto mais ela performa perfeição, mais vazia parece. É por isso que a sequência do vestido funciona tão bem, não é apenas sobre criar uma peça de roupa, mas sobre revisitar uma ferida emocional que nunca cicatrizou. Cada costura parece uma conversa que elas nunca tiveram.
David Lowery filma tudo como um delírio febril. Às vezes parece um drama psicológico, às vezes um filme de possessão, às vezes um videoclipe etéreo gigante. Tem momentos em que a estética ameaça engolir a narrativa e honestamente, em certos trechos engole mesmo. O filme ocasionalmente se perde nas próprias metáforas e no desejo constante de soar grandioso. Mas ainda assim existe algo hipnotizante nele. Mesmo quando Mother Mary falha, falha tentando criar algo verdadeiramente único.
E o final amarra tudo de maneira muito melancólica: quando Mary remove seus antigos figurinos e finalmente aceita aquele “espírito” vermelho, o filme sugere uma espécie de renascimento artístico e emocional. Ela finalmente entende que não pode continuar existindo apenas como imagem. Pedir perdão para Sam não resolve completamente os danos entre elas, mas permite que Mary volte a integrar arte e humanidade pela primeira vez em anos.
Enquanto isso, Sam fica com o vestido, quase como alguém recuperando uma parte da própria história que havia sido roubada ou esquecida. E Mary oferece a única coisa que sabe oferecer: música. “Spooky Action” funciona como uma carta de amor impossível de ser assumida publicamente. Talvez ninguém além delas entenda o verdadeiro significado daquela canção, mas isso não importa. O vínculo entre as duas continua vivo ali.
Mother Mary não é um filme fácil de amar. Ele exige entrega emocional e paciência para navegar seus simbolismos, silêncios e excessos. Mas por trás de toda a estética grandiosa existe algo muito simples e doloroso, duas mulheres tentando sobreviver ao peso da arte, da fama e de um amor que nunca deixou de existir.















Que crítica maravilhosa, profunda e instigante. Adorei e despertou ainda mais o interesse em assistir esse filme. Parabéns!!!