É surpreendente o quanto a premissa inicial de “Continente” traz à mente o recente “A Herança“, exibido na última edição do Festival do Rio. Ambos se iniciam com o retorno do filho pródigo após a convalescença de um dos pais. Em ambos os casos, o rebento retorna da Europa com um parceiro gringo à tiracolo. Ambos enclausuram seus protagonistas em fazendas macabras. Ambos são histórias de terror.
Mas “A Herança” não esconde as cartas em momento algum — a trilha bombástica e sinistra, a caracterização macabra dos personagens da fazenda: impossível achar que estamos diante de algo que não um filme de terror. É um trabalho que, apesar dos pesares, denota um apreço pelo gênero, uma vontade de se filiar às suas convenções, um carinho pelos filões. Já “Continente” se desenrola como um drama por um bom tempo antes de enveredar pelo sobrenatural — tanto que é capaz do espectador mais desatento ser pego desprevenido.
Pode-se mesmo acusar o diretor Davi Pretto de uma certa languidez no andamento da trama. Ele faz questão de esconder o jogo, guardar seus mistérios. Fato é que “Continente” poderia se beneficiar de uma maior economia visual e narrativa — ou, ao menos, de uma abordagem mais direta. Uma vez que os elementos sobrenaturais entram em cena, eles são tão pulp quanto poderíamos esperar, de modo que chega a parecer que o filme vinha escondendo o jogo até por certa vergonha descabida.
Até lá, teremos o desenrolar da história de Amanda (Olivia Torres), retornando da França com o parceiro, Martin (Corentin Fila), para a fazenda do pai. Chegando lá, ela descobre que o velho está prestes a bater as botas. Acontece que nem todos estão tristes com a situação. Os trabalhadores do lugar, por exemplo, para quem o velho era um tirano, vinham esperando por esse dia há muito tempo, assim como a médica da vila (Ana Flavia Cavalcanti).
As peças são posicionadas com ares de slow burner, gradualmente. Veremos a médica administrando uma droga misteriosa a alguns dos moradores. Veremos um dos camponeses se comportando de modo estranhamente errático. Até mesmo Amanda parece se tornar contaminada por seja lá qual podridão ancestral paira sobre o lugar.
E assim, mesmo quando já está mais ou menos claro para o espectador o que está acontecendo, “Continente” segue se recusando a mostrar as cartas. Daí a impressão de que se trata de vergonha, e não de mistério ou suspense. Nesse caso, não sobra muito ao longa exceto manter as engrenagens alegóricas girando vagarosamente, sem que nenhuma das suas imagens realmente atinja algum poder visceral.
No que tange às tensões entre patrões e empregados, “Continente” ainda traz à mente outro longa recente, o bom thriller “Propriedade”. Ali, assumia-se uma chave franca de gênero como forma de expiar a violência inerente das relações quase feudais do Brasil profundo. “A Herança” flerta com a ideia, e “Continente” claramente aspira a esse mesmo propósito. Mas, por algum motivo, o diretor Davi Pretto convalesce de uma languidez que, em contrapartida, não abate os vingativos camponeses de seu filme.













Eu tô com duas dúvidas latentes acerca do filme. 1) há explicação de que a linhagem do senhor lá e da filha tem um sangue diferente? Porque eu pensei o filme inteiro “uma roda resolveria”.
2) no final, a interpretação é de que teve um mata mata ou que a médica começou a fazer o acordo?
Tô ✨inquieta✨