Há muitas maneiras de homenagear alguém. Sendo esse alguém uma estrela de primeira grandeza como Marcello Mastroianni, o primeiro do seu nome, e celebrando o centenário do maior nome do cinema italiano, as homenagens não poderiam passar despercebidas. E essa celebração da vida e obra do eterno galã não poderia ser menos especial.

Dirigido por Christophe Honoré, “Marcello Mio” é um resgate de memória e afeto sob o olhar inquieto da filha, a também atriz Chiara Mastroianni.

O filme é uma imersão dessa filha que abre mão da própria personalidade para viver a vida do pai. Inicia vestindo roupas masculinas, usando peruca curta, sem esquecer do bigodinho. Ela quer ser chamada e reconhecida(o) como Marcello. Para a mãe, a deusa francesa Catherine Deneuve, é só um comportamento passageiro, embora a preocupação materna impere em todos os momentos. Para outras pessoas mais próximas, como a diretora Nicole Garcia, seu amigo também ator Melvil Poupaud e seu ex-marido, Benjamin Biolay, o alerta de preocupação está em potência máxima. Nessa jornada de descoberta ainda atravessam o caminho de Marcello (Chiara) os atores Fabrice Luchini, o único que embarca nesse “devaneio” e o Hugh Skinner, único que interpreta um personagem.

Esse encontro entre pai e filha, filha e pai, diretor e atriz (ator) é interessante. Penso que é quase um trabalho antropológico dessa mulher que encarna o pai para redescobrir um pouco sobre si. Pena que Honoré, em certos momentos, pesa a mão desta ficção misturada com realidade tornando “Marcello Mio” em certos momentos enfadonho.

Sobram momentos bonitos quando mãe e filha visitam um antigo apartamento em que moravam, um encontro de Chiara com o seu eu criança e uma espécie de DR entre Deneuve e Marcello (Chiara) em uma cena tão perturbadora quanto instigante.

O ato de celebrar uma vida e carreira notável como de Marcello Mastroianni é completamente genuíno. Honoré e Chiara ganham pontos por sair do lugar comum de uma cinebiografia ou um documentário. Aqui, é a reinvenção do mito sob a ótica dessa filha de pais separados, sob o peso de ser cria de duas lendas do cinema europeu e está perdida nesse meio entre França e Itália. 

“Marcello Mio” é muito mais sobre Chiara Mastroianni em se reconhecer e se acolher aceitando quem ela é e encontrando o seu lugar no mundo e nunca é tarde para isso, mesmo sendo uma mulher de 52 anos. Abraçando o caos, as lembranças, os anseios e, sobretudo, aceitando que só há espaço para um Marcello Mastroianni e está tudo bem em viver à sombra do pai. No final, Mastroianni e  Deneuve serão sempre seus pais e isso ninguém poderá lhe questionar.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

    Ver todos os posts