“DaSilva da Selva” soa como um grande déjà vu da carreira de Anderson Mendes. Após surgir no fim dos anos 1990 brincando com o trash no coletivo Hyperfilmes, o diretor amazonense passou a realizar cinebiografias documentais. Começou com figuras folclóricas de Manaus em “A incrível história de Coti: O Rambo do São Jorge” e “Picolé do Aranha”, duas produções de caráter pop, muito divertidas a ponto de virarem pauta nacional. Depois, Mendes resolveu adotar abordagens mais comedidas, próxima a homenagens em “Pistolino e o Filme que não Acaba” e “Oscarino e Peteleco”.
E chegamos ao documentário sobre Sebastião Corrêa da Silva, conhecido como Da Silva da Selva, artista plástico com mais de 600 obras focadas na Amazônia, em que esta veia da homenagem ganha contornos de caráter familiar – Anderson é sobrinho de Sebastião. Sendo assim, o tom saudoso fica acrescido de uma certa nostalgia e melancolia.
Nada, entretanto, que mude a base do cinema de Mendes: alternam-se falas do homenageado em uma entrevista antiga e arquivos pessoais relatando um pouco da própria trajetória e das inspirações intercalado com as imagens dos desenhos e quadros. Complementa-se a isso performances em que o ator Moacyr Freitas interpreta DaSilva da Selva. A trilha pesarosa composta pelo próprio diretor – que ainda assume a função de roteirista e montador do projeto – dá o tom do documentário que busca reverenciar o artista mais do que tudo. sem aprofundar muito sobre quem ele foi ou o que representava sua obra para a visão sobre a Amazônia.
Desta forma, “DaSilva Da Selva” perde a oportunidade de tensionar melhor sobre o retratado: em uma entrevista para uma espécie de Roda Viva, por exemplo, Da Silva conta ser místico e, devido a isso, veio para a Terra com a missão de retratar a Amazônia. Mas qual seria esta Amazônia? Indícios estão no filme ao mostrar o conceito de uma região cercada de mistérios e mitos, ilustrado no desenho do artista de um monstro que engole soldados e desbravadores, e da beleza da fauna e flora com todo o seu detalhismo salientado pelo artista e sua memória fotográfica.
O filme, entretanto, nunca parece muito interessado nisso, como se não coubesse dentro de uma homenagem tais questionamentos. Anderson Mendes adota a linha mais tradicional possível até mesmo nas performances inseridas ao longo do filme, as quais buscam apenas reproduzir elementos da obra do artista. Não que não rendam momentos imageticamente belos pela direção de arte de Keylla Gomes e pelo sempre seguro Moacyr Freitas, mas, são estéreis do ponto de vista de uma maior dimensão de Da Silva e até emocionalmente.
No fim das contas, resta um documentário excessivamente reverente ao homenageado em que a importância de se falar sobre aquele personagem aprisiona todas as possibilidades. Quando se olha para o delicioso “Seu Cavalcanti” em que o diretor pernambucano Leonardo Lacca joga com o próprio avô em uma carta de amor que não esconde eventuais problemas dele, fica nítido como o cinema de Anderson Mendes pode ser mais criativo para além do tradicional.












