“No Dia Seguinte Ninguém Morreu” é, sem dúvida, uma das mais gratas surpresas do cinema produzido no Amazonas nos últimos anos. Esta frase pode parecer daquelas bombásticas para chamar a sua atenção logo de cara, mas, quem teve a oportunidade de assistir ao curta-metragem de estreia de Gabriel Bravo de Lima na direção, realizado ao lado de colegas de classe e amigos do quinto período de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas e com os próprios pais do diretor de protagonistas, sabe não se tratar de exagero. 

O curta de quase nove minutos de duração traz um título autoexplicativo, baseado na frase de abertura de “As Intermitências da Morte”, clássico de José Saramago. Tecendo uma teia envolvente, “No Dia Seguinte Ninguém Morreu” remete a “Ilha das Flores” com colagens de uma série de fotografias para compor a narrativa, ainda que seja capaz de quebrar isso, de forma orgânica, com a inserção de um mockumentary nonsense. Toda esta estrutura a serviço de um roteiro calcado em pitadas de realismo mágico latino, um pouquinho de ficção científica e críticas sociais, refletindo a melancolia nada esperançosa dos dias atuais.  

As observações do narrador/protagonista como pitadas de uma leveza irônica de quem ri da própria desgraça e do buraco onde o mundo se meteu sem ter a possibilidade de fuga completam este panorama não muito animador. Ainda que já vistas de formas mais aprofundadas em obras de mestres como o próprio Saramago, García Marquez, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, “No Dia Seguinte Ninguém Morreu” consegue ainda trazer curiosas reflexões sobre a maneira como encaramos a morte e o papel dela na sociedade.  

A escolha da icônica “Vapor Barato”, canção feita no auge da repressão da ditadura militar pela dupla Jards Macalé e Waly Salomão na versão imortalizada por Gal Costa, sintetiza uma produção simbólica que, apesar da realidade oposta ao mundo pandêmico repleto de mortes diárias, reflete o mesmo estado de espírito de desalento e vazio absoluto de perspectivas dos dias atuais. Por outro lado, expectativas sobram para os próximos trabalhos de Gabriel Bravo de Lima e equipe, afinal, é raro aparecer um projeto tão bem definido, de referências tão consistentes e transposição criativa como ocorre em “No Dia Seguinte Ninguém Morreu”. Isso logo no primeiro filme. 

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