Uma vida inteira de telenovelas preparou o público latino para a plena fruição de “Emilia Pérez”. O filme, um daqueles musicais operáticos em que os diálogos se confundem com as músicas, mistura intriga de cartéis, transições de gênero, estrelas pop e crimes violentos. Que o longa, passado na Cidade do México, tenha sido dirigido por um francês (Jacques Audiard), rodado em estúdios na França e produzido pela Saint Laurent seria o bastante para fazer a sobrancelha de qualquer leitor precavido se arquear mais do que o Arco do Triunfo.

Há ainda mais motivos para a suspeita. Olhando a carreira de Audiard, poderíamos lembrar do seu exercício em miserabilismo cinematográfico de 2012, “Ferrugem e Osso”, com a paleta dessaturada, a câmera na mão e atuações naturalistas, tudo sob medida para festivais. Talvez tenha sido esse lado “seguidor de tendências” do diretor que tenha motivado Marcelo Hessel, em ocasião do lançamento de “Dheepan – O Refúgio”, a acusar Audiard de “internacionalismo de vitrine”. Que o filme tenha ganhado a Palma de Ouro em 2015 não deixa de ser uma confirmação à tese, de certa forma.

E agora, este “Emilia Pérez”, escolhido para representar a França no Oscar depois de ter garantido dois troféus em Cannes (Prêmio do Júri e um prêmio de Melhor Atriz compartilhado pelo elenco feminino – mais sobre isso depois). Nosso leitor hipotético talvez se contorça ainda mais na cadeira ao descobrir que esta história mexicana sequer tem uma atriz mexicana entre as protagonistas – das quatro atrizes premiadas pelo longa, apenas Adriana Paz nasceu no México. Difícil não dar razão ao crítico omeleteiro nessas horas.

Mas uma coisa é certa: em se tratando de musical, o mais importante, claro, é que as canções sejam boas e os números, memoráveis. Até aí, “Emilia Pérez” se garante bem. Enérgicos, com coreografias elaboradas e movimentos de câmera nervosos, eles sabem alternar entre o grandioso e o íntimo, o engraçado e o tocante.

Felizmente, Audiard também não parece tão interessado nos clichês que assolam o imaginário branco sobre o México e o mundo latino: a violência desenfreada, os turistas acossados ou, pior, o “filtro Terceiro Mundo”, aquela imagem amarelada que representa todo o hemisfério sul do planeta nos filmes, desde Tijuana até Bagdá.

O que interessa Audiard são as maquinações próprias do melodrama e disso a gente que é latino entende. É dessa forma que “Emilia Pérez” começa com ares de thriller criminal: Rita (Zoe Saldaña) é convocada para uma missão inusitada por um temível traficante (Karla Sofia Gascón, que cria uma impressão poderosa em pouco tempo de tela como o personagem). A advogada deve rodar o mundo para o chefão em busca de um cirurgião que lhe realize uma cirurgia de redesignação sexual. Renascida como Emilia Pérez (também Gascón), a ex-criminosa precisa abrir mão da família para manter a nova identidade. Isso significa deixar sua esposa Jessi (Selena Gomez) e seus filhos para trás. Está posto o tabuleiro para uma série de reencontros, segredos, casos amorosos e crises de ciúmes. Tudo que as novelas já nos ensinaram a esperar.

Seguir detalhando as viradas da trama seria, portanto, leviano. De resto, basta dizer que, se houvesse justiça no mundo, Karla Sofia Gascón teria ganhado o prêmio de melhor atriz em Cannes sozinha. Como já dito, as quatro principais (Saldaña, Gascón, Gomez e Adriana Paz, que interpreta um interesse amoroso de Emilia) dividiram o troféu na premiação deste ano. E não é que as colegas de Gastón não estejam à altura: Zoe Saldaña, em especial, tem a melhor atuação da carreira, não só pelo tanto de emoção que injeta na hiper-competente advogada Rita, como pelo modo como seu corpo é demandado durante os números musicais. Nesse sentido, suas cenas são as mais eletrizantes. Já Gomez, que é plenamente capaz de segurar as pontas neste tipo de produção, está claramente tendo dificuldades em atuar majoritariamente em espanhol.

Mas é que Gascón anima sua personagem de forma tão completa que fica difícil imaginar o prêmio indo para qualquer outra pessoa do elenco (a não ser Saldaña). Sua Emilia Pérez é sexy, segura, misteriosa, calorosa, assustadora – ou seja, um espelho perfeito das direções aparentemente díspares que o próprio filme toma. A decisão do júri, presidido por Greta Gerwig, tem então um gosto amargo: soa como uma forma de tirar o corpo e dissolver os holofotes em vez de concentrá-los na primeira mulher trans a ganhar o prêmio de atuação feminina no festival. Quase como se faltasse coragem de sustentar a decisão até o final.

Por outro lado, claro que é legal viver num mundo em que Selena Gomez também tem um prêmio em Cannes.