“Os erros ou excessos na administração do mundo das imagens produzem consequências políticas imediatas”. Esse é o tipo de tagarelice canastrona pretensiosa que talvez encontrássemos numa review de Arthur Tuoto – e que não surpreende, portanto, que dê as caras neste seu longa. Curiosamente, no entanto, em “Foram Os Sussurros que Me Mataram”, Tuoto filtra seus instintos mais insuportáveis através de uma aposta completa na artificialidade televisiva. 

Pensando bem, não deixa de ser algo apropriado para alguém que elogiou o recente “Pacifiction”, por exemplo. Já dá pra sacar daí o tom deste noir cyberpunk à la thriller de câmara, mas Tuoto vai além na construção posada. Naturalmente, foi uma decisão do diretor pedir aos atores que declamem suas falas com uma desenvoltura digna de “Cinderela Baiana”. O efeito é inusitado: toma conta uma verve “novela das 20h” pela via de um David Lynch de “Império dos Sonhos”. 

Aliás, muitas referências vêm à mente durante a projeção. Na assepsia digital, na paranoia midiática, há um quê do Cronenberg dos últimos 15 anos aqui – a clausura da personagem de Mel Lisboa até faz lembrar a de Robert Pattinson em sua limousine em “Cosmópolis”. Até mesmo a breguice derivativa dos synths incessantes na trilha sonora tem seu charme. Tudo isso torna o ato de pensar sobre “Foram Os Sussurros que Me Mataram” mais divertido que o de assisti-lo. 

VIAGEM PRAZEROSA

O que não é, per se, um problema – exceto quando diversos outros filmes, muitos dos quais já citados, tratam da mesma temática de forma mais interessante. Aqui, Mel Lisboa é uma atriz enfurnada em seu quarto de hotel enquanto aguarda o início da sua participação em um reality show. Do lado de fora do prédio, o som constante de tiros e sirenes de polícia: paparazzi ameaçam vazar sua presença na mídia, protestos anarquistas tomam conta das ruas, alguém se suicida em outro quarto. Cabe à Lisboa navegar por todo o caos com seu biquinho glacial e sua pose de vilã aristocrática, o que tem seu valor. 

É tudo divertido até certo ponto, mas, com meros 75 minutos, “Foram Os Sussurros que Me Mataram” consegue ter toda a pinta de um projeto de curta que foi esticado demais. Apesar dos pesares, a viagem não é de todo desperdiçada. Pode ser uma pedida difícil entrar na onda de Tuoto, mas aos que estiverem dispostos a sintonizar na frequência de seu filme, a jornada tem seu interesse.