A exemplo de “Alucinação“, que também compete na mostra de documentários do Festival do Rio 2026, “Fui Olhar Você Dormir” fala aos convertidos: não aos fãs de Belchior, como no caso do primeiro filme, mas do genial letrista Aldir Blanc.

Eu, que já sou convertido, fiquei como pinto no lixo ao longo de seus breves 73 minutos. Ou talvez até converta novos fiéis: o Aldir aqui é apresentado é bem mais humano e interessante que o mítico e engessado Belchior de “Alucinação”.

A comparação entre os dois filmes é injusta (mas injustiça é a regra do jogo numa competição como esta), porque as obras usam estratégias bem diferentes. “Alucinação” quer usar o disco de Belchior como trampolim para ver e ouvir o país dos anos 1970; “Fui Olhar Você Dormir“, por sua vez, está preocupado com as miudezas da vida conjugal, com o homem por trás do artista.

O mote são os infinitos bilhetinhos que Aldir espalhou pelo seu apartamento tijucano, na Rua Garibaldi (onde hoje há um monumento em sua homenagem), para serem lidos por Mari Lúcia, sua companheira de toda a vida. Mari lê as cartas dos marido, assiste fitas caseiras, escuta suas gravações. As paredes brancas do apartamento, já amareladas com o tempo, talvez tenham sido as únicas testemunhas, além dos próprios Mari e Aldir, dessa troca epistolar.

Faz lembrar “Um Casal“, um dos últimos projetos de Frederick Wiseman. Nele, uma atriz, interpretando Anna Tolstoy, declamava trechos dos diários e das cartas que a mulher escreveu para o marido, o grande Leo Tolstoy. Aqui, mantém-se a figura feminina, mas ocorre o inverso: o que é lido são as cartas de Aldir para a sua esposa.

Em ambos os casos, é a memória da esposa que dá sentido ao retrato do marido: Aldir é uma presença ausente, oxímoro animado pela memória de Mari Lúcia. Surge a faceta de um compositor patologicamente tímido, neurótico, avesso aos holofotes artísticos e propenso à bebida. Mas também despontam o sedutor, o humorista, o vovô coruja.

Claro, o filme de Anna Azevedo não reinventa a roda — estão aqui a janela em 4:3, velho marcador do intimismo, os depoimentos emocionados de Mari e até mesmo uma sequência em que as cartas do compositor de “O Bêbado e a Equilibrista” são projetadas sobre o corpo da amada. Tudo isso, há quem possa dizer, é decididamente brega. Pode-se até objetar que uma figura tão mercurial, complexa e sacana quanto Aldir — como o próprio filme retrata tão bem — merecia um retrato um pouquinho mais singular.

Pode ser. Por outro lado, e as cartas também mostram bem isso, eis aí um sujeito que gostava de um sentimentalismo.