Independente se você gosta ou não da John Wick, hoje qualquer filme de ação contemporâneo que se preze tem como principal parâmetro a saga estrelada por Keanu Reeves. Mais da metade dos trabalhos lançados nos últimos anos no gênero como um todo seguem a cartilha da famosa franquia, focados em um mundo criminal violento, filmado a partir de sequências de ação estilizadas.
Por isso, não surpreende que Fúria Primitiva replicou espertamente no marketing pessoal esta fórmula, sendo que na superfície do seu trailer promocional vendido, ele é uma versão indiana do homônimo americano. Na prática, porém, a história de vingança segue rumos bem diferente da série do Baba Yaga.
Na trama acompanhamos o ator/diretor/produtor/roteirista de “Fúria Primitiva”, Dev Patel, na figura de Kid, um homem que sobrevive nas ruas de Mumbai ganhando a vida em lutas clandestinas como o lutador Monkey Man (situação que explica o título original). Com um passado obscuro e traumático, ele coloca em prática um plano para se infiltrar numa rede criminosa da elite indiana, composta por policiais, políticos e empresários corruptos. Por meio de flashbacks que remetem à infância com a mãe e que ajudam a montar as peças do quebra-cabeça sobre o passado de Kid, compreendemos as motivações e obsessões em torno do oficial militar Hanna (Sikandar Kher) e do líder político religioso Baba Shakti (Makarand Deshpande).
Em Fúria Primitiva, Patel mostra que sabe bem como se escorar nas referências da série hollywoodiana, sem perder de vista também os aspectos relevantes da cultura e do cinema indiano que ele procura destacar neste trabalho de estreia. Tudo isso para entregar para o espectador um filme de ação intenso e violento com várias alegorias sociopolíticas na jornada do seu herói.
Um Projeto de amor e paixão
Para um ator que construiu grande parte da sua conceituada carreira no cinema dramático desde que se destacou em 2008 com Quem Quer Ser um Milionário, não deixa de ser curioso ver Dev Patel escolher o gênero da ação para fazer o ritual de iniciação atrás das câmeras.
Fúria Primitiva é um projeto de amor e paixão que ele vem tentando dar vida já tem uns 10 anos, apesar de todas as dificuldades de tirá-lo do papel. Inicialmente, foi comprado pela Netflix acreditando no marketing propagado de ser a versão made in Índia de ação de John Wick, mas que depois de ver o material finalizado, se deu conta do texto político-social escrito por Patel em parceria com John Colle e Paul Angunawela. Com o isso, o streaming resolveu não se arriscar e vendeu os direitos a Universal com Jordan Peele assumindo a função de produtor executivo.
Soma-se a isso, teve a pandemia que atrasou o cronograma da produção e os problemas de set que interromperam as gravações diversas vezes porque o seu diretor/astro quebrou a mão durante as gravações juntamente com os problemas de ordem técnica, no caso as câmeras que deram problema e que obrigaram certas sequências a serem filmadas com um iPhone. Durante as entrevistas de divulgação do trabalho, Patel relatou que sua intenção como amante da ação era oferecer algo de diferente no conteúdo que ele vem sendo trabalhado no cinema atualmente, principalmente após o sucesso de John Wick.
Curiosamente, o filme se torna mais interessante quando se afasta realmente da ação em si, ao transformar a história de vingança em uma parábola social para pontuar, em um tom provocativo, as desigualdades sociais geradas pelo sistema capitalista dentro da realidade indiana, escancarando as deficiências e conflitos culturais do país. Isso a partir da alienação trazida pela religião e do poder opressor do governo, que potencializam a exploração de trabalho nas castas hierárquicas, onde os ricos têm muita aquisição e os pobres vivem numa completa miséria.
A figura de Kid na visão de Patel é o símbolo dramático da resistência à diversidade cultural e de gênero por meio dos mitos e folclore da comunidade hindu (na figura do Deus Macaco Hanumân), na qual ele se apoia na necessidade dos mais fragilizados para trazer a justiça social como fortaleza para as políticas repressivas de Estado. Neste aspecto, a obra cria uma relação intima pertinente com as figuras da mitologia indiana para rechear sua história dramática.
Drama social com quebras de ritmo
Uma pena que o drama social proposto por Fúria Primitiva não permita que ele se torne tão complexo ou sagaz como o roteiro insinua. A direção de Patel se perde em uma estrutura fílmica didática em vários momentos, com o próprio argumento de vingança sendo previsível – os arcos de superação/redenção já foram vistos em outros filmes do gênero, seja no cinema ocidental ou oriental – e todos os dilemas que Kid enfrenta são pasteurizados por uma narrativa irregular que não encaixa o debate político, religioso e o cotidiano social indiano com a ação em si.
O grande problema não é a utilização dos clichês de vingança, mas sim a maneira que Patel o constrói na jornada de fúria do personagem. Fúria Primitiva tem muitas quebras de ritmo que incomodam. Em várias situações, o protagonista deixa de lutar ou agir para ter uma certa reflexão dramática, o que seria válida se não fosse a ausência de um tratamento dramático objetivo por parte do texto, que transforma o sofrimento do herói em um lenga-lenga interminável e que se revela ainda mais redundante por meio de flashbacks sobre a sua infância que mais cansam do que fazem a história progredir.
Se na teoria a ideia de romper com o conceito frenético do cinema de ação contemporâneo do primeiro ao último plano é interessante, na prática o material base dramático de articulação com a história é prejudicado por uma mecânica pouca criativa.
Ação de riscos e escolhas problemáticas
No campo da ação, Fúria Primitiva reconhece o que John Wick representa para o segmento. Dá para notar a vontade de filmar que Patel demonstra em fazer uma ação de riscos e que é cuidadosa na medida do possível na sua cinematografia. Conta com uma fotografia habilidosa em destacar os contrastes entre ricos e pobres no cenário indiano e dar uma ambientação eficiente as coreografias frenéticas em espaços fechados. Vale destacar também certas escolhas visuais feitas pelo seu realizador: aquelas filmadas em primeira pessoa, são inventivas e dão um tipo de imersão subjetiva interessante ao público frente aquela realidade amoral.
O grande problema é como Patel enquadra a luta: a grande maioria dos sets pieces de ação tem uma decupagem que exagera na picotagem, apresentando várias imagens desfocadas que dificultam o espectador em abstrair os cenários e personagens, cenas que mais se aproximam dos piores momentos das obras de Michael Bay e Paul Greengrass.
Infelizmente, ele cai no uso comum da câmera trêmula para ação, investindo em sequências de cortes rápidos para tentar passar a sensação de intensidade ao público. Pior que daria para fazer um filme de ação bastante objetivo sem qualquer tipo de firula, se Patel tivesse mais confiança em deixar que os planos falassem pela sua ação do que deixar que ela fosse guiada pela montagem. Isso não impede o filme de ter cenas que vão agradar quem gosta deste formalismo de imagens que não duram mais de 5 segundos em tela. Particularmente o ato final produz aquela catarse necessária na concretização da vingança do seu protagonista.
No fundo, Fúria Primitiva mesmo vendendo a sua história diferente de tudo o que vem sendo feito na ação atual, especialmente no contexto e base dramática, acaba por ter uma concepção que mesmo cheia de boas intenções, se estagna nas suas próprias ambições.














