Kai cria um implante externo na têmpora que permite, por vibrações e por uma conexão a sensores de órbita, “ouvir” cada raio cósmico e tempestade solar que atinge o planeta Terra. Ao seu lado, outros tem aparatos similares que permitem a conversão de cor em som. De sentir micro terremotos no próprio corpo. E toda a sorte de coisas com a maior cara de ficção científica. 

É estranho. É esquisito. É curioso. Vai para o lado de excentricidade muito rápido. Mas curiosamente não é por isso que Geração Ciborgue, filme de Miguel Morillo, se interessa necessariamente.  Em um documentário que não faz muito além de abrir espaço e dar ouvidos a uma juventude que parece fazer de tudo para se conectar com estes aspectos naturais dentro e fora do planeta. E que se concentra nisso. 

Sem pensar em personagens e fontes que tenham implantes mais pragmáticos. Que poderiam também ser chamadas de ciborgues – isto é: alguém que tem simultaneamente de partes orgânicas e cibernéticas – mas que não interessam para o tema central aqui. Um grupo muito específico de pessoas de uma geração muito jovem. De geração Z e de gerações entre a Z e a Alfa. Que usam da tecnologia para ouvir, sentir, se aproximar de fenômenos que ficam no paradoxo de estarem sempre lá e de forma perene mas que ninguém consegue acessar realmente sem os sensores corretos. 

Mas por quê? Por que alguém passa por isso? Por que o procedimento invasivo e cirúrgico e ilegal muitas vezes? E tudo a troco de uma curiosidade. De algo que por vezes pode até ser incômodo e desagradável. (imagine sentir no corpo micro abalos sísmicos o tempo todo ou ser atormentado dia e noite por raios cósmicos como se fosse uma ‘goteira’ na nossa atmosfera)

Não é algo que tanto o filme quer responder quanto ele quer nos perguntar. Nos fazer ponderar. 

No caso de Kai. Musicista e protagonista do filme. Fica muito claro o aspecto de deslocamento de uma sexualidade não normativa. De alguém que provavelmente sente não pertencer tanto a um mundo mais próximo e palpável. Que busca nessa escuta expandida para a estratosfera captar algum sentido mais duradouro para contrapor a efemeridade de uma sociedade que é movida por preconceitos e regras sociais que são construtos humanos. Como se as questões sociais e a própria civilização não significassem muito perto da grandiloquência da idade da terra. Como se tudo fosse um caos insignificante e temporário frente à impassividade dos sons do cosmos. 

Uma sinfonia constante martelando a cabeça para lembrar que tudo ao seu redor é só ruído. 

Algo que se repete mas não se aprofunda nos seus pares também ciborgues. Até porque o filme se monta bem esquematicamente para falar de um fenômeno a partir de uma pessoa. Em vez de construir um documentário mais tradicional que fosse alternar entrevistas com dados ou especialistas.

Apostando em um simplismo que se reflete em algo que pode até parecer contraditório a princípio. A textura de película que a imagem tem. E com uma fotografia bem lavada. Que talvez sirva bem para lidar com essa coisa analógica dos sensores e apetrechos. E com esse paradoxo temático de tecnologias que servem para desconectar das pessoas e se conectar à natureza. Embora o filme, nem nesse lado formal nem em seu discurso, se interesse em ir além. 

Escapando do genérico do retrato e da exotização do fenômeno. Nos fazendo perguntar mais do que ouvir respostas. Mas não necessariamente alcançando alguma grande profundidade. Inclusive ao não questionar ou pôr em voga aspectos materiais que ficam bem claros como o privilégio de classe de quem tem os meios para viver assim e se submeter a isso.