Para ler ouvindo:
Surpresas nem sempre são totalmente boas ou totalmente ruins. Algumas ficam entre um e outro deixando uma sensação de incompletude. É um desafio, portanto, quando estamos diante de algo que nos causa grande expectativa que não cumpre o prometido, ou que esperávamos dela.
Inicio esse texto para reafirmar a sensação do incompleto com o cinema do diretor Boots Riley. Desde o seu primeiro e, então, único filme “Desculpe por Incomodar” (2018) estava de olho nele de uma forma bem distante, confesso, também impulsionado pelas críticas mistas às suas obras: filme e a minissérie “Eu Sou de Virgem” (2023). Uma grande besteira!
Quando tive que assistir “I Love Boosters” (2026) para fazer esta crítica, pensei na oportunidade perfeita para adentrar ao mundo de Riley. Obviamente, iniciei com o seu primeiro trabalho e logo depois com o seu mais recente lançamento. Um grande fracasso nas bilheterias dos Estados Unidos.
Booster é um derivado de uma gíria em inglês para sintetizar um grupo que pratica pequenos furtos em lojas para revender esses produtos pela metade do preço nas comunidades. Ou como as protagonistas justificam: “FFF: Fashion-Forward Filantropy” (Filantropia de Vanguarda da Moda). É a partir dessa premissa que acompanhamos Corvette (Keke Palmer), Mariah (Taylour Paige, hilária!) e Sade (Naomi Ackie), um trio de amigas, jovens negras e suburbanas que praticam esses delitos para sobreviverem. O mundo delas se converge com a implacável magnata bilionária da moda Christie Smith (Demi Moore), quando esta rouba uma ideia de Corvette. A partir disso, a grande admiração torna-se revolta e Corvette, junto as suas amigas e mais outras aliadas que aparecem pelo caminho, buscam vingança.
Assim como na sua estreia na direção, Riley imprime uma identidade muito própria para falar do “homem primata capitalismo selvagem”, parafraseando o hit oitentista dos Titãs. Como esse sistema é um rolo compressor da selvageria do capital e, principalmente, como ela impacta diretamente e psicologicamente nas vidas negras com muito mais força.
Nesse sentido, não é loucura falar que um filme complementa o outro em várias questões, entre eles, do corporativismo autoritário e a busca pelo lucro a qualquer custo. Todavia, se em “Desculpe Te Incomodar” o seu protagonista negro tinha que usar “a sua voz de branco” para ascender profissional e socialmente, em “I Love Boosters” é a voz preta que se volta contra a voz branca de uma única pessoa que comanda opressão, trabalho escravo e tem sangue em suas mãos que estão representadas pelas roupas estampadas na vitrine. E não nos esqueçamos das famosas e infames pirâmides em mais uma maneira de arrancar o pouco do dinheiro daqueles que precisam mais.
Esses dois manifestos anticapitalistas com muita fúria me lembraram bastante Spike Lee. Sem dúvidas, o diretor negro mais importante de Hollywood, possui em sua substância o manifesto contra o racismo estrutural, sistêmico, questões identitárias e um forte teor político. Riley, por sua vez, centraliza explicitamente em conjunto com a luta de classes e o capitalismo e como esses fatores forjam personalidades condicionadas ao longo sofrimento capital. Não é que um seja pupilo do outro, pois de modo geral, são distintos, mas a ira está ali e é similar.
E então, surge aquele sentimento agridoce, aquela sensação do inacabado. Isto é, quando a expectativa não é cumprida. Explico: o filme chama a atenção pelo fator excêntrico e autêntico na sua assinatura visual, contudo a direção opta por um caminho de excessos no seu roteiro, esvaindo toda uma boa construção na sua primeira parte, para depois ser jogado ao ralo na segunda parte quando abraça a ficção científica, atribuindo uma falsa complexidade subestimando a cognição do/a espectador/a.
E isso é um grande problema em “I Love Boosters”, enquanto uma comédia de justiça/vingança há uma satisfação da expectativa, entretanto, quando Riley resolve abraçar o absurdo percebe-se a fragilidade do texto que poderia ser muito mais simples.
O que se salva além do elenco carismático (embora Lakeith Stanfield e Will Poulter sejam totalmente dispensáveis), o visual estético chama atenção. O figurino afrofuturista, as cores fortes e berrantes, o prédio de 30 graus, a trilha sonora original dez tons acima dos decibéis e a edição frenéticas salvam o filme do fiasco total mesmo quando ele decide pelo circo de vez. Embora a cena em miniaturas da perseguição policial seja muito bem-feita. Ou quando Mariah (Paige) se transforma na atriz e comediante Robin Thede representando a Mariah de pele clara (light-skinned Mariah), uma clara sátira à passibilidade de pessoas negras com pele mais clara à exemplo da própria cantora Mariah Carey que é lida como branca, mas por conta da gota de sangue preta do seu pai, é vista como negra/birracial.
Por mais que expectativas sejam subjetivas, a experiência de um filme indeciso, mesmo mascarado em anarquia e o forte apelo social e político, não foram o suficiente para dar coesão e sentido, algo que deu muito certo em seu filme de estreia.















