Para algumas pessoas, as marcas da vida e das condições sociais e históricas em que estão inseridas são tão profundas que nem elas mesmas conseguem enxergar. As feridas físicas são tão pequenas perto das feridas da alma. A partir disso (ou por causa disso), cresce nessas pessoas uma grande fúria, um grande ódio, uma grande revolta. E vos digo: todas completamente genuínas e justificadas.
A autora estadunidense Audre Lorde em um dos seus famosos ensaios, “Os Usos da Raiva: Mulheres Respondendo ao Racismo” (1981, posteriormente intitulado “Irmã Outsider”), analisava esse grande animal colérico alimentado ao longo dos anos por racismo, opressão, etc., como fundamental na luta antirracista e em favor do feminismo negro.
E a mulher negra, historicamente, está à margem. Não vou me aprofundar, mas uma rápida pesquisa você descobre que essa figura feminina, seja no Brasil ou nos EUA, são as principais vítimas de feminicídio. E quem as protege, afinal? Quem luta por elas? Quem se vinga por elas?
É nesse espírito da coisa que somos transportados para toda fúria, indignação e zero desculpas para o texto e direção catalisadores de Alesha Harris, estreante no ofício, mas deixando uma marca importante no atual cinema estadunidense no thriller psicológico para contar, nas entrelinhas, problemáticas sociais.
Em “Is God Is”, acompanhamos as gêmeas Racine (Kara Young) e Anaia (Mallori Johnson) que, depois de uma grande tragédia na infância, tornaram-se órfãs e viveram de abrigo em abrigo até finalmente atingirem a maioridade. Um dia, elas recebem uma carta inesperada da mãe que julgavam estar morta. Nesse encontro (em uma cena toda performática), a genitora, Ruby (Vivica A. Fox) diz toda a verdade: o pai de ambas (Sterling K. Brown) ateou fogo nela. Eis o motivo de ser uma mulher à beira da morte e próprias gêmeas, igual ela, serem marcadas por queimaduras por todo o corpo. O desejo final de Ruby? Que elas matem o pai, o causador de tantos danos em suas vidas.
A partir desse encontro e sentença, as irmãs partem sul adentro atrás desse homem, encontrando pessoas que poderiam saber do seu paradeiro, como a ex-amante Divine (Erika Alexander), uma pitoresca pastora, um não menos excêntrico advogado de defesa sem língua (Mykelti Williamson) e a atual esposa e seus gêmeos homens (Janelle Monáe, Xavier Mills e Justen Ross, respectivamente).
O filme é uma adaptação homônima de um texto da própria Harris de um espetáculo off-Broadway, peça que causou grande burburinho em 2018. A prova disso foi a vitória no Obie Award, o Tony Awards para o teatro independente. Nesse sentido, “Is God Is” tem em sua essência um pouco do Blaxploitation dos anos 1970, mas a energia da atualidade em misturar gêneros. A ironia marca esse filme também por conta das irmãs estarem a caminho do Sul, região marcada pela escravidão e pelo racismo permanente. Duas mulheres negras, marcadas em seu corpo, com liberdade de atravessar o país de carro, dançando twerk, para se vingar do seu algoz? Isso é revolucionário!
Para além do já dito, penso que Is God Is é uma grande alegoria para toda violência que a mulher passa por conta dessa figura masculina e que também pode respingar em certos homens. O patriarcado e a certeza da impunidade, a violência pela violência pelo fato de ser homem, o jeito MACHO de ser, o imediatismo de suas vontades e quando não são atendidas eles se transformam – ou se revelam -, é a grande mensagem. Melhor dizendo, alerta.
A violência é simbólica até que se torne estatística. Além do grande infortúnio nas vidas dessas irmãs, ele deixou rastros do seu poder: o altar que Divine ainda tem desse homem, a forma submissa que Angie (Monáe) precisa cuidar da casa e dos filhos. Não há nada de saudável que circunda o personagem de Sterling K. Brown e as pessoas de certa forma tornam-se presas desse ser repugnante. E, mais uma vez, Harris foi muito sagaz em mostrar esse monstro aos poucos, em fragmentos, um close nas mãos, nos pés, no corpo do pescoço para baixo, do seu sorriso largo e dentes muito brancos. Um close apenas sem mostrar o personagem por completo dá calafrios e repulsa.
A fotografia solar é uma grande máscara para esconder o obscurantismo da alegoria e a busca das gêmeas por vingança e liberdade. E as sequências da igreja, do encontro com o advogado, o encontro com Angie, elas se fingindo de strippers e o embate final são verdadeiros ode ao cinema do melhor de Tarantino e do próprio Blaxploitation, por exemplo.
Aliás, que elenco espetacular encabeçado por essa grande dupla que é Kara Young e Mallori Johnson, doçura e caos na mesma proporção. A maquiagem das queimaduras ajuda muito no desenvolvimento das atrizes, mas o talento e carisma de ambas extrapolam os limites, compreendemos, queremos e desejamos o sucesso dessa missão. Uma curiosidade é que Young é uma atriz não muito conhecida no audiovisual, mas uma estrela no teatro com direito a dois Tony Awards.
Quando o medo está na própria casa por uma figura que deveria ser protetora, a raiva – que nem você mesmo sabe que tem, mas ela existe -, vai crescendo ao longo dos anos e somados aos diversos fatores externos isso se potencializa. A vingança é uma forma de liberdade e acerto de contas quando se passa por traumas e injustiças como as gêmeas passaram. Elas são muito complexas e não pedem desculpas por ser quem são e como são, essa também é uma lição importante que Harris imprime em seu texto e direção. A sequência final entre elas e o pai – e aqui é uma fala muito pessoal: me causou um sentimento tão bom, me senti vingado! -, é fundamental para compreender esse macro através do micro. E mesmo com um final não esperado, a vida é assim, nem sempre todos saem ganhando. Mas é importante manter essa raiva vívida e saber usá-la.















