Mesmo sem ter uma ligação profunda com a franquia “Karatê Kid”, preparei-me para este novo capítulo revisitando o primeiro filme — que ainda guardava na memória, especialmente pelas exibições na saudosa Sessão da Tarde —, além do remake de 2010, com Jackie Chan e Jaden Smith, e a primeira temporada da série “Cobra Kai”, quando ainda fazia parte do YouTube Originals. Essas são as minhas principais referências desse universo cinematográfico.

Agora, no sexto capítulo da franquia, percebo que “Karatê Kid Lendas” busca ir além da estrutura narrativa já conhecida: o protagonista de fora que sofre bullying, se apaixona, enfrenta um rival por conta desse amor e resolve tudo no ringue. Desta vez, temos algo mais interessante: entre os filmes que vi da série, este é o que melhor desenvolve o romance, fazendo com que o espectador realmente sinta o peso quando esse vínculo é colocado à prova.

Há também uma interessante reinterpretação narrativa que merece destaque. Nos filmes anteriores, especialmente no clássico de 1984, a premissa gira em torno de alguém ensinando um americano, refletindo sobre como a transmissão de conhecimento ultrapassa barreiras culturais. Aqui, o filme ressignifica essa ideia ao colocar o protagonista como o centro desse aprendizado, fazendo com que a jornada de autoconhecimento e superação esteja intrinsicamente ligada à compreensão do outro e de si mesmo.

A mise-en-scène contribui muito para essa sensação, utilizando luzes e o desfoque do cenário para destacar os personagens e ressaltar o quanto a história é sobre eles, sobre suas emoções e seus dilemas pessoais. Esse cuidado estético reforça a centralidade do elenco na narrativa, fazendo com que o filme se construa a partir dos pequenos gestos e expressões que moldam a identidade de cada um.

Entendo as críticas que provavelmente surgirão sobre a duração de Karatê Kid Lendas (1h30). O público parece dividido: ora reclamam dos filmes longos, ora dos curtos, dizendo que “foi todo picotado para ter uma hora e meia” ou que “não souberam cortar e ficou chato”. No meu caso, a experiência foi de pura diversão. A leveza do filme me lembrou uma das melhores comédias românticas dos últimos anos, A Galera dos Corações Partidos (2021), principalmente pela forma como transmite a inocência da paixão e a vulnerabilidade do desejo juvenil, ao mesmo tempo em que lida com saúde mental dentro de uma abordagem leve e acessível.

Um dos elementos que mais me chamou a atenção foi o uso da edição como recurso de estímulo visual e narrativo. Dana E. Glauberman imprime um ritmo dinâmico às sequências de construção dos personagens, algo que faltava ao primeiro Karatê Kid, cuja narrativa era desregulada e, por vezes, desinteressante.

O elenco principal também merece destaque, especialmente Sadie Stanley, que demonstra um carisma muito maior que seu par, Ben Wang. Apesar dessa diferença, ambos funcionam bem em cena, e a química entre os personagens contribui para a autenticidade da trama. Outro ponto positivo é como o filme lida com as participações especiais. Em vez de fazer um alarde desnecessário — comum em franquias que trazem de volta rostos conhecidos —, aqui essas aparições surgem de forma orgânica, sem tempo de tela alongado só para receber aplausos do público. O filme segue com fluidez, centrado na contagem regressiva dos sete dias que restam para o campeonato de bairros, aumentando a tensão de maneira eficiente.

Karatê Kid – Lendas pode até dividir opiniões quanto à duração e ao requinte de uma abordagem de história já usada em seus filmes anteriores, mas acerta ao equilibrar leveza, romance e a jornada pessoal de seus protagonistas. No fim, é um filme que aposta na nostalgia, mas com frescor suficiente para envolver tanto fãs antigos quanto novos.