No Globo de Ouro de 2009, o apresentador Ricky Gervais subiu ao palco pouco depois da vitória de Kate Winslet como Atriz Coadjuvante por “O Leitor”. Era para ser a primeira conquista dela no evento após anos de tentativas sem sucesso. O comediante mira nela e diz: “Eu te disse – faz um filme de Holocausto e o prêmio vem”. Ao lado de Leonardo DiCaprio, a atriz apenas riu sem graça, meio que concordando com a lembrança. Errado, Gervais não estava, tanto que ela faturou o Oscar semanas depois.

Sem indicações ao prêmio da Academia desde 2016, Kate Winslet parece ter recordado esta história e resolveu encarar “Lee”, uma cinebiografia moldada para a temporada de premiações. Aqui, ela interpreta Elizabeth ‘Lee’ Miller, modelo que virou fotógrafa da Vogue durante a Segunda Guerra Mundial e se tornou uma das primeiras a chegar aos campos de concentração, onde registrou uma das maiores tragédias da história.

Antes de cair no marasmo tedioso da cinebiografia e do filme de guerra nosso de cada temporada de premiação, porém, “Lee” possui, nos primeiros 30 minutos, um elemento interessante: a forma como a protagonista, os amigos e a sociedade europeia mais próxima do Ocidente não acreditavam no perigo do que se avizinhava com a ascensão de Adolf Hitler. Assistindo a um cinejornal da época, o grupo formado por homens e mulheres modernos para a época até se assustava com como todos aqueles alemães se deixavam seduzir por Adolf Hitler, mas tudo parecia distante e seguro o suficiente para seguirem a vida.

Mesmo durante o conflito, esta incapacidade de compreender a dimensão da tragédia segue com a protagonista. O reencontro de Miller com a amiga Solange D’Ayen (Marion Cotillard) no retorno a Paris após a desocupação dos nazistas faz a protagonista entender os traumas deixados durante aquele cerco, isso mesmo sem que nada explícito ou detalhado seja dito – basta o olhar de medo e horror da atriz francesa, diga-se, infelizmente, bastante mal aproveitada. A situação se repete no processo de entendimento do que acontecia com as tais milhares de pessoas desaparecidas, no caso, os mortos do Holocausto nos campos de concentração.

O roteiro de Liz Hannah e John Collee ainda foca na pauta feminista ao explorar como Miller estava à frente do seu tempo em um mundo que impedia as mulheres de terem autonomia mínima. Da liberdade de tirar a camisa na frente de amigos em um chá da tarde, passando por ir atrás do homem que deseja, até a inquietude de romper barreiras colocadas contra as mulheres, mesmo em um cenário de guerra, faz dela uma figura interessante de se acompanhar pela constante altivez e determinação. Nas mãos de uma atriz do tamanho de Kate Winslet, isso vira um deleite em assistir, compensando, inclusive, a reta final marcada por tentativas tortas de inserir um melodrama e uma reviravolta forçada com o personagem de Josh O’Connor.

Ainda assim, a falta de personalidade advinda do desejo de seguir à risca o manual do Oscar está toda ali: a prevalência da história real ambientada na Segunda Guerra Mundial sobre uma figura não tão conhecida, mas que teoricamente não pode ser esquecida, a direção genérica de Ellen Kuras incapaz de tornar um momento sequer memorável, roteiro protocolar contando de forma linear e sem maiores aprofundamentos passagens importantes, e competência técnica padrão na direção de arte, figurinos e som. Soma-se a isso um elenco de grandes nomes mal aproveitados, como Alexander Skarsgård, Noémie Merlant, Andrea Riseborough e Adam Sandberg, além dos já citados Marion e Josh. Todos levantando a bola para Kate Winslet brilhar.

Para os padrões típicos de temporada de premiações, “Lee” até consegue ter mais predicados bons do que a média. Pena que a prisão em que certas produções são colocadas para se enquadrarem naquilo que supostamente os votantes da temporada de premiações gostam de prestigiar impede voos maiores e mais ousados. Ficamos neste mais do mesmo visto todos os anos a partir do segundo semestre. Ano que vem tem mais com Kate Winslet ou qualquer outro astro de Hollywood louco pela estatueta do Oscar.