“Mad God”, de Phil Tippett, é como um passeio de parque temático pelos círculos do Inferno de Dante se o poeta italiano tivesse um fetiche tecnorgânico e fosse um mestre da animação. A descrição pode parecer irresistível, mas é importante ter em mente que o filme é tão frustrante quanto audacioso.
Frustrante, porque Tippett não tem o menor interesse em jogar pelas regras de ninguém a não ser as suas. É verdade que, sendo ele o animador e mago dos efeitos responsável pelas criaturas de “Star Wars”, “Jurassic Park” e os mecatrônicos em “Robocop”, pode-se dizer que ele fez por merecer.
O que não impede que “Mad God” resulte em uma experiência ligeiramente truncada, o que talvez se explique pela sua conturbada gestação de mais de 30 anos. Não deixa de surpreender que o produto final passe a impressão de certa incompletude, não apenas diante das décadas de trabalho tortuoso mas, sobretudo, porque o filme não tem o menor interesse pelos ditames narrativos. Ora, sendo isso óbvio desde o primeiro frame, como dizer então que algo ficou faltando? E, no entanto, é exatamente essa a impressão.
Há dois caminhos para responder a pergunta: o primeiro é que Tippett, zombeteiro que só, faz questão de subverter as expectativas do público enquanto segue sua própria musa. Há, por exemplo, uma sequência inteiramente dedicada às diversas formas de transformar criaturinhas de feltro em geleia. Outra, já próxima ao final, é interrompida antes do fim enquanto um personagem desce um grande poço em espiral para lugar nenhum.
O outro caminho é que, sendo o filme antes de tudo um banquete visual, Tippett não está interessado em nada que não seja a tatilidade de suas criaturas e o virtuosismo de sua técnica. O que é óbvio para qualquer um que veja o trailer do filme, motivo pelo qual sequer me preocupei em sumarizar o “enredo” do longa até aqui. Fora que soa também como uma explicação insuficiente. Se “Mad God” é o produto de um artesão hábil e visualmente audacioso, como já está implícito na embalagem, então seria proveitoso que Tippett nos desse mais pistas, oferecesse mais portas de entrada para seu mundo de pesadelos.
Porque deve haver um equilíbrio entre o críptico e o convidativo: é preciso ser oblíquo como forma de permitir que a plateia use a própria imaginação para completar as lacunas. As imagens infernais conjuradas por Tippett quase chegam lá, mas acabam sendo herméticas demais.
Se o texto traz à tona apenas a face negativa da experiência, é porque seus pontos positivos são mais ou menos auto-evidentes: imaginação dos cenários, o design das criaturas, o cuidado com o som etc. Mais interessante é a sobreposição de técnicas, com stop motion e animação 3D misturados à pitadas de live action. O efeito é desconcertante: como cada quadro surge atolado de detalhes alienígenas, a mistura de técnicas nos deixa ainda mais incerto sobre o que estamos vendo. Sem falar na estética lo-fi chapiscada de granulado. Há sequências aqui dignas de pesadelos.
E pode “Mad God” ser mais do que um ótimo demo reel da Tippett Studios? Essa é uma resposta que vai depender única e exclusivamente da frequência com a qual suas criaturas atormentarão meu sono daqui para frente.













