Sem folha, não há orixá: “Mariposa” escolhe abrir justamente com imagens do preparo de um banho de folhas, a partir do qual o curta vai explorando gradualmente a evidente relação de simbiose que a espiritualidade das religiões afro-brasileiras tem com a natureza ao seu redor. Nas dunas da praia de Santa Rita, em Extremoz (RN), onde o curta foi gravado, belas paisagens em preto-e-branco se desvelam em planos abertos que, frequentemente, posicionam o elemento humano no canto do quadro, mostrando como a natureza se impõe frente ao mundo.

O curta de Alexandre Américo e Pedro Vitor nega uma narrativa tradicional e segue pelo caminho da exploração sensorial para refletir sobre espiritualidade e ancestralidade. Vemos imagens de uma mãe de santo em meio ao seu banho de ervas, preparos e orações, bem como um homem (ou divindade?) que parece buscar impor sua vontade contra algo ou alguém.

Entre eles, a montagem contrapõe planos mais fechados de água, fogo, terra e ar, tensionando as imagens e os elementos entre si em uma aparente disputa. Em certos momentos, isso se reflete ainda mais por imagens sobrepostas em dupla exposição na tela, acentuando a noção de conflito. Trechos de uma dança se sobrepõem com as ações do homem, por exemplo, criando uma relação meio que de causa e efeito. A montagem toda parece fluir nesse movimento, às vezes quase como uma videodança. E faz sentido, uma vez que disputas e tensões estão frequentemente na base dos itãs, as narrativas sagradas das religiões afro que contam os feitos de orixás e a cosmologia do mundo ao redor.

Para além da fotografia e da montagem, os diretores encontram no belo trabalho de desenho de som mais uma forma de ecoar essa tensão latente e o mistério. Em outro momento, por exemplo, escutamos a natureza falar de volta à sacerdotisa, mas não sabemos exatamente o quê, dado o aspecto metálico e distorcido que essa voz ganha.

Afinal, “Mariposa” não parece mesmo querer revelar nada explicitamente ao espectador: muitas vezes, ancestralidade e espiritualidade são mistérios, e, por isso, o curta prefere investir na experiência sensória que esses segredos trazem.

“Mariposa” integra a Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.