ATENÇÃO: O texto a seguir contém spoilers
No ano passado, a diretora Rafaela Camelo fez sua estreia em longas-metragens no Festival de Berlim, seguida por um circuito premiado em outros festivais. Hoje disponível na Netflix, ela justifica o porquê dessa recepção e de como só precisa de 90 minutos para encantar o espectador.
“A Natureza das Coisas Invisíveis” traz duas jovens de 10 anos, que se encontram em um hospital, formando uma amizade improvável. Suas experiências compartilhadas, ao lado de suas mães, as levam a uma jornada emocional repleta de perdas, despedidas e realizações comoventes sobre a vida.
O longa faz parte daqueles filmes que chegam de mansinho – slow burning, como dizem, mas marcam. Preciso dizer que à mim, ele só engatou após uns 40 minutos (considerando que isso seja quase metade de sua duração, talvez seja um problema), mas quando engata, é uma avalanche de sentimentos e alguns momentos inesperados que o transformam em um toque sensível e mágico de humanidade.
A obra de Camelo aposta menos em grandes acontecimentos, choques e revelações, enquanto se inclina mais naquilo que geralmente passa despercebido: gestos, silêncios, olhares e sentimentos que não cabem em palavras. É um cinema sensível, delicado e profundamente atento ao humano.
A narrativa se constrói a partir da escuta. O filme observa seus personagens com paciência, sem pressa de explicar tudo, permitindo que o espectador complete os vazios com suas próprias emoções e experiências. Essa escolha transforma o longa em uma vivência quase íntima, como se estivéssemos compartilhando algo muito pessoal com quem está em cena. E sobre isso, é necessário um spoiler. Caso não queira ter acesso, recomendo pular esta parte, apesar do tema pertinente.
Ao irem numa mercearia, as meninas são questionadas sobre um suposto irmão mais velho de Sofia. Ela apenas diz que ele morreu. Momentos mais tarde, ela revela à Glória que na verdade, o menino a quem se referiam era ela, e que ela é uma menina trans. Glória apenas ri e continuam a brincadeira.
Em um momento tão delicado à comunidade LGBTQIA+, principalmente a perseguição a pessoas trans, em que personalidades da mídia invalidam a existência de crianças trans, é lindo de ver um cineasta trazer esse olhar puro, inocente, para uma causa tão alardeada negativamente na mídia. O filme evita fazer disso uma grande questão na vida das personagens, e nada contra a maré, representando uma mãe que, inicialmente é apresentada como negligente, mas que compreende a filha desde o início e a apoia. Singela abordagem, mas imensa e corajosa mensagem.
Visualmente, há um cuidado evidente na composição dos planos. A fotografia trabalha a luz e os espaços de forma orgânica, criando uma atmosfera contemplativa que dialoga diretamente com o título: o que importa não é apenas o que vemos, mas o que sentimos diante daquilo. A direção também opta pelo uso de uma câmera estática em diversos momentos, que particularmente não me agrada, e talvez até parece empobrecer o trabalho fotográfico.
As atuações seguem o tom contido do longa. Não há espaço para exageros: tudo soa natural, crível, humano. Os personagens existem mais pelos afetos que carregam do que pelos conflitos externos, e isso dá ao filme uma força emocional silenciosa. É perceptível que grande parte do elenco não é profissional, o que traz um certo charme para a história e a forma que está sendo contada.
No fim, as quatro retornam das merecidas “férias de verão”, imersas em si próprias e no valor da vida que dispõem para viver. “A Natureza das Coisas Invisíveis” é exatamente sobre isso, um convite à pausa, não atropele sua caminhada. Um filme que valoriza a sensibilidade em tempos de excesso, lembrando que nem tudo precisa ser dito em voz alta para ser profundamente sentido. Seu grande triunfo é conseguir enxergar a inocência que ainda se pode encontrar e a transmitir a beleza que ela possui.














