Com frequência, o cinema se torna lugar de elaboração dos nossos próprios sentimentos, sejam eles ausências, lutos, memórias, saudades. “Vejo Você de Repente” é uma dessas obras que partem de um lugar bem íntimo e particular: em uma espécie de mistura de documentário com videoarte, a diretora Aída da Costa explora a ausência do seu pai, quase três décadas depois da sua partida repentina.

A lembrança mais imediata de referência é, claro, o recente “Aftersun”, em que Charlotte Wells também elabora sobre a perda do pai. Aqui, porém, Aída não faz isso como ficção, e sim de um ponto de vista completamente pessoal. O tom biográfico está posto desde o começo do curta: em primeira pessoa, Aída reconta em uma narração em off uma das memórias que tem do pai.

Essas memórias ganham um caráter de experimentação audiovisual ao longo de todo o curta: à medida que Aída vai relembrando histórias ou refletindo sobre as lacunas que o pai deixou em sua vida, as lembranças ganham diferentes formas. Às vezes, são animações em rabiscos por cima de imagens da casa da família e da praia que visitaram na infância. Em outros momentos, são fotos antigas que ocupam a tela, ou desenhos em forma de colagem. As lembranças também vão aos poucos tomando a forma de metáforas visuais – a mais presente é a imagem do peixe, que surge em fotos, vídeos e desenhos, sempre como a figura que entrou nas águas e não mais voltou.

“Vejo Você de Repente” é a tentativa autoconsciente de Aída de alcançar esse peixe que escorrega pelas mãos. A certa altura, a diretora encontra um registro em vídeo do pai que ela não sabia que existia e opta por incluir isso no curta e compartilhar com o público. Logo, mostra que não há negação do papel do dispositivo audiovisual nessa narrativa que se torna um processo de autodescoberta e resgate de memórias. Pessoalmente, acredito que é um ato de coragem partilhar e elaborar algo tão íntimo por meio da experiência coletiva do cinema.

“Vejo Você de Repente” integra a Mostra Competitiva Nacional de Curtas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.