“O que é uma despedida diante da imortalidade?”
Esse é um trecho da narração feita por Fernanda Montenegro no documentário Milton Bituca Nascimento, de Flávia Moraes e Acquaria (2003), na qual ela utiliza a última turnê do cantor mineiro para discutir seu legado e influência internacional. O resultado é uma produção chapa-branca que enaltece um dos maiores artistas da história brasileira.
Ao lado de Marcelo Ferla, Moraes segue uma linha narrativa que passeia por diversos pontos para tentar dimensionar a figura de Bituca. Por um lado, isso é interessante porque o espectador mais desavisado consegue ter percepções diversas do artista; por outro, no entanto, é problemático, pois o fragmenta em pequenos pedaços superficiais que se unem devido à presença apoteótica de Milton.
Quem busca uma biografia documental ou os bastidores de uma turnê não encontrará isso em Milton Bituca Nascimento. O projeto está mais preocupado em apresentar aspectos que redimensionem e ampliem a percepção do trabalho e da pessoa de Milton. Alguém que foi reprovado na Escola de Canto (sim, querido, significa que pode haver chances para você e eu), mas é considerado doutor pela Universidade de Berkeley, uma das melhores do mundo. O filho adotivo de dona Lilian, que se tornou pai adotivo de Augusto, responsável por fazê-lo sentir o maior amor do mundo, como ele mesmo comenta no filme.
Neste caminho, vários artistas e músicos também endossam o que pensam sobre Bituca e sua experiência de convivência com o mineiro. Entre Spike Lee, Sérgio Mendes e Quincy Jones, acompanhamos como a música influenciou não apenas os brasileiros, mas também acordes do mundo todo. Além de evidenciar para nós, leigos, alguns dos elementos que tornam suas composições únicas, diferenciando-o de outros imortais da música e atestando a genialidade e naturalidade do seu fazer musical. Como os sons do trem durante uma viagem ou o cair da chuva nas montanhas de Minas Gerais; Milton é natureza e é ouvido; por isso mesmo, é travessia, não início nem fim.
Em contraponto a isso, no entanto, a fragilidade do filho de Lilian e Maria é estampada em sua aparência e se mostra latente em sua sensibilidade. A força e resiliência de sua aura e de sua música, contudo, são o maior antídoto contra a face de sua vulnerabilidade, visto que ele a transforma em poesia, em canções capazes de emocionar o mundo. Agora, pense no peso e na honra de termos um artista negro com essa importância, e ele ser brasileiro! É só um pouco do gostinho de vivermos no mesmo século que Milton.
Acredito que um dos grandes acertos da obra é fazer essa homenagem ainda em vida. E chega ao público em um período interessante, em que o convite do cantor para estar na arquibancada do Grammy, em vez de ter um lugar junto a Esperanza Spalding, com quem concorria, ainda está vívido na memória do brasileiro. A presença de tantos norte-americanos dando seus depoimentos sobre Bituca mostra sua relevância para a música internacional e para o país cuja premiação o deixou de lado. Nesse interim, é importante ressaltar também a referência ao álbum Clube da Esquina, considerado o melhor disco brasileiro lançado e o nono melhor do mundo; como este influenciou a música na América Latina e escancarou a “americanidade” dos versos e acordes do artista mineiro.
Milton Bituca Nascimento é uma homenagem sensível e delicada a um dos maiores artistas brasileiros. Penso que o filme poderia ter inserido mais músicas e momentos de Bituca cantando, mas sua inclinação está em evidenciar o legado e a importância de sua arte e sua persona para o mundo. É uma forma de homenagear internacionalmente o artista em vida, para quem o mais importante é a travessia, e disso ele entende muito bem.












